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A Odisseia

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A Odisseia

A Odisseia

Desde a Antiguidade até a Idade Contemporânea, as relações do homem com o mar foram cantadas por inúmeros poetas.
No canto Il do poema épico “Ilíada”, composto no século VIII a.C. e considerado o marco inaugural da literatura ocidental, Homero relacionou as frotas dos reis gregos, as quais totalizando mil navios, atravessaram o mar Egeu para atacar Tróia.
Já na “Odisseia”, produzida algumas décadas após a “iliada” como sequencia da grande epopeia, o célebre poeta cantou as aventuras de Ulisses, versão latina do nome grego Odisseu, rei de Itaca, um dos principais heróis da Guerra de Tróia, que após sobreviver ao conflito empreende uma longa e perigosa viagem marítima de volta à casa para matar os pretendentes de Penélope, sua esposa, reafirmando assim seus direitos ao trono.
Com Ulisses e sua tripulação, Diário de Bordo percorre os caminhos da “Odisseia” e do maravilhoso marítimo.

Ulisses amarrado no mastro do navio. Detalhe de vaso ático de figuras negras, de 480-470 a.C. Acervo do Museu Britânico

O poema do mar

Enquanto a “ilíada” é o poema da guerra, que evoca o poder de expansão da raça e o estabelecimento dos gregos nas costas da Ásia Menor, a “Odisseia” é o poema do mar, o qual ilustra o espírito de aventura de um povo então apegado à terra, obrigado a buscar novas condições de existência.
Frequentemente atribuiu-se aos fenicios a honra de ensinar aos gregos as primeiras noções na arte da navegação. O mais correto, porém, é creditar tal mérito aos aqueus. Deles, principalmente, os gregos aprenderam os segredos da navegação, tornando-se cedo os “povos do mar”, como desde o século XIII a.C. sāo designados nos textos egípcios.
No século seguinte, após a invasão dos dórios, os aqueus buscam, por mar, refúgio na Ásia Menor e, nesse solo, evocam, em dias menos felizes, a recordação dos feitos pretéritos. Seus dedos (cantores de epopeias) celebram-lhes as façanhas gloriosas, contribuindo para que floresça na Eólida e na dônia, por alturas do século VIII a.C., a epopeia homérica, manancial de toda a poesia grega.
Foram estas, segundo parece, as condições e a época em que a “Odisseia” foi escrita.
Em seu poema, Homero certamente recebeu a influência de seus predecessores, inspirados no labor e nos perigos, bem como, nas aventuras maravilhosas ou terríveis dos homens do mar. Em numerosas descrições técnicas, o autor nos faz enxergar a manobra e a ancoragem, o marujo erguer o mastro e soltar a vela, ou, acostando à margem pela popa, escorar na areia a embarcação que trouxe para a terra. Essas minúcias, diversas no poema, aproximam-no das eras remotas em que os aqueus se iniciavam na arriscada arte de navegar
No entanto, ao maravilhoso marítimo da “Odisseia” já se juntava o interesse da verdade humana. Estes contos se enxertavam numa aventura simples, tomada da vida: a aventura do marinheiro que se afasta para longa viagem, deixando no lar a esposa e um filho. A tempestade, a escala forçada, os piratas, o retêm longe da pátria, durante tanto tempo que a julgam “morto”. No lar, a esposa porta-se com dignidade, mas por um lado, sua formosura e, por outro lado, os bens familiares, atraem a cobiça dos pretendentes. O filho é ainda demasiado jovem para afastá-los. O marido regressa, quando já se tinha desvanecido a esperança de sua volta, reaparecendo em casa como vagabundo desconhecido.
Pode-se imaginar, e a vida o tem dado, mais de um desfecho para esse tema, tão antigo e tão frequentemente retomado. O desfecho apresentado pela “Odisseia” será cruel: 0 desconhecido, insultado em sua casa pelos que lhe requestam a esposa, revela sua identidade e chacina os rivais.

Homero, autor dos poemas épicos “Ilíada” e “Odisseia”, obras fundadoras da literatura ocidental. Busto em mármore, cópia romana de uma escultura original do período helenístico, séculos IV a II a.C. Acervo do Museu Britânico.

A divisão do poema


A “Odisseia” é composta por vinte e quatro rapsódias, as quais dividem-se em três partes: viagens de Telêmaco, o filho de Ulisses (rapsódias I a VIII), Ulisses no palácio de Alcino, rei dos Féaces (rapsódias IX a XII) e vingança de Ulisses (rapsódias XIII a XXIV).
A parte central do poema é a segunda parte, devido à importância que nela assume o maravilhoso marítimo.
Entretanto, para que o leitor tenha uma ideia geral da obra, transcreveremos abaixo um resumo em prosa de suas três partes.

Parte 1 – Rapsódias I a VIII

As viagens de Telêmaco, o filho de Ulisses


A “Odisseia” começa com uma Invocação à Musa. Na mitologia grega, as Musas eram entidades a quem era atribuída a capacidade de inspirar a criação artística.
Somente então a história tem início.
Reunidos em assembleia, os deuses atendem ao pedido de Atena e decidem pelo regresso de Ulisses, que após deixar Tróia ficara retido na gruta de Calipso, uma ninfa do mar. Na assembleia dos deuses, Posidon estava ausente. Autorizada pelos deuses, Atena dirige-se a Ítaca, disfarçada na figura de Mentes, rei dos Táfios. Recebida por Telêmaco, o jovem filho de Ulisses, a deusa da sabedoria e da justiça ergue-lhe o ânimo e aconselha-o a se dirigir ao sábio Nestor, na arenosa Pilo, bem como, a Menelau, o rei de Esparta, a fim de obter notícias de Ulisses. Reconfortado, Telêmaco ordena à sua mãe, Penélope, que descera para ouvir o rapsodo Fêmio, que volte ao seu aposento. Em seguida, convoca os pretendentes para uma reunião na ágora no dia imediato, para lhes comunicar suas resoluções. Ao anoitecer, todos se retiram para descansar.


No dia seguinte, os itacenses convocados por Telêmaco reúnem-se na ágora. Não obstante a intervenção de Haliterses e de Mentor, os pretendentes recusam-se a abandonar o palácio de Ulisses, rejeitando a solicitação de Telêmaco, que pedira um navio e uma equipagem. A beira-mar, o filho de Ulisses invoca Atena, que lhe aparece disfarçada com as feições de Mentor e lhe promete ajuda. Entretanto, em casa, repele o convite sarcástico do pretendente Antino, ordenando a Euricléia, ama-de-leite de Ulisses, que faça os preparativos para a viagem. Neste meio-tempo, Atena providencia um navio e tripulação. Já noite, Telêmaco manda levar as provisões para o navio e embarca em companhia de Atena, disfarçada na figura de Mentor.

Penélope e os pretendentes. Óleo sobre tela, de John William Waterhouse, 1912


Ao chegarem a Pilo, Atena e Telêmaco recebem cordial acolhimento. O jovem responde a Nestor acerca do objetivo da viagem e solicita notícias de seu pai. Nestor conta as provações sofridas em Tróia e a volta dos aqueus, mas nada sabe sobre Ulisses. Conversam então sobre os pretendentes, as possibilidades de vingança e o regresso de Ulisses. A pedido de Telêmaco, Nestor explica como a ausência de Menelau possibilitou o assassínio de Agamemnon, rei de Argos, o mais poderoso dos reis aqueus na campanha de Tróia. Após sacrificar aos deuses, Nestor convida os hóspedes a passar a noite em seu palácio, mas Atena declina o convite. Ao partir, a deusa é reconhecida por Nestor, que lhe promete uma oferenda. Na madrugada seguinte, o sacrifício em honra de Atena é realizado. Após a refeição ritual, Telêmaco, em companhia de Pisistrato, filho de Nestor, dirige-se por terra para Feras e a Lacedemônia.

Telêmaco deixa a corte de Nestor, por Henry Howard (1769-1847)


Na chegada a Lacedemônia, Telêmaco e Pisistrato são entusiasticamente recebidos pelo rei Menelau, esposo da bela Helena. A admiração de Telêmaco perante a magnificência do palácio induz o rei a contar de que maneira acumulou tantas riquezas. Declara que, de todos os seus companheiros de armas, Ulisses é aquele de quem tem maior saudade. Telêmaco chora e é reconhecido por Menelau e, em seguida, por Helena. Pisistrato expõe o motivo da viagem e as declarações de Menelau sensibilizam os assistentes. Todavia, o filho de Nestor põe termo às lágrimas, enquanto Helena e Menelau passam a relembrar as façanhas de Ulisses. No dia imediato, Menelau começar a contar quanto sabe a respeito do ausente. Diz que Ulisses continua vivo, mas a ninfa Calipso retém-no cativo em sua ilha. Então, Menelau entrega a Telêmaco os presentes da hospitalidade. Enquanto isso, em Itaca, os pretendentes são informados da partida do filho de Ulisses e combinam armar-lhe uma cilada no regresso. Depois de informada sobre os planos dos pretendentes, Penélope fica aflita. Para reconforta-la, Atena envia-lhe um fantasma, com a aparência de iftima. Decididos, os pretendentes partem para a emboscada contra a vida de Telêmaco.
Em nova assembleia, a instâncias de Atena, os deuses decretam o regresso de Ulisses. Hermes, o deus mensageiro, transmite a Calipso a ordem de Zeus, intimando-a a deixar o cativo partir. A ninfa declara a Ulisses ser necessário que ele construa uma jangada e exorta o, mas em vão, a que permaneça junto dela. Ulisses termina a jangada em quatro dias, partindo no quinto e avistando no décimo oitavo a terra dos Féaces, exímios navegadores. Ao ver o herói, Posidon provoca uma tormenta, na qual quase morre Ulisses. A deusa Leucótea dá-lhe um talismā. Ulisses desfaz a jangada e, graças ao véu de Leucótea e à proteção de Atena, alcança, a nado, a ilha de Esqueria. Muito a custo, chega à foz de um rio, oculta-se numa floresta e, extenuado, adormece.

Ulisses e Calipso. por Gerard de Lairesse. C. 1680

Atena aparece em sonho a Nausica, filha de Alcino, o rei dos Féaces, aconselhando-a a ir ao lavadouro. A jovem princesa consegue que o pai lhe dê uma parelha de mulas e parte, acompanhada pelas criadas. Tendo lavado a roupa, as moças tomam banho, jogam bola e despertam Ulisses, que dirige suas súplicas a Nausica. Por ordem da princesa, as criadas trazem a Ulisses roupas e alimentos. O herói acompanha Nausica até as proximidades da cidade e se retém no bosque consagrado a Atena, para quem dirige uma prece.
Depois de Nausica ter entrado no palácio, Ulisses, acompanhado de Atena e envolvido numa nuvem protetora, chega à cidade, admirando-a, principalmente o palácio e os jardins de Alcino. Encontra então, reunidos no palácio, os principes dos Féaces, os quais, ao vê-lo, se quedam estupefatos. A convite do ancião Equeneu, Alcino dá-lhe as boas vindas e promete reconduzi-lo à terra natal. Após a saída dos hóspedes, a rainha Arete pede a Ulisses que se explique sobre a maneira como se encontra vestido. O herói responde à rainha e conta as tribulações sofridas desde sua partida de Ogígia. Ao fim da narrativa, Alcino de novo lhe assegura que os Féaces o reconduzirão à pátria.

Ulisses e Nausica, por Charles Gleyre (1806-1874)



Na assembleia, reunida na manhà seguinte, Alcino dá instruções para que seu hóspede seja reconduzido à pátria. Enquanto se apresta uma nau, um banquete é servido no palácio. O aedo Demodoco canta episódios da guerra de Tróia e Ulisses sente-se profundamente comovido. O rei percebe e convida os assistentes a voltarem à ágora para presenciarem os jogos. Ulisses é instado a tomar parte nos jogos e decide-se a fazê-lo em consequência de uma zombaria que Eurialo lhe dirige. O herói sai vencedor no lançamento de disco e desafia Os Féaces para outras provas de atletismo. Alcino apazigua os ânimos emanda cham aedo, que canta os amores de Ares e Afrodite. As danças excitam a admiração de Ulisses e o rei exorta os principes a oferecerem presentes ao hóspede, obtendo a reconciliação deste com Euríalo. Ao cair da noite, todos voltam do palácio. Durante o caminho, Nausica vem saudar Ulisses pela última vez. Depois do festim, Demodoco canta sobre o cavalo de madeira que provocou a ruína de Tróia. Como o hóspede ocultasse o rosto e chorasse. Alcino pergunta-lhe quem é e qual o motivo de suas lágrimas.

Ulisses arrebatado pela canção de Demódoco, por Francesco Hayez. C. 1813-1815


Parte II – Rapsódias IX a XII

Ulisses no palácio de Alcino, rei dos Féaces


Após ter louvado o canto de Demódoco, Ulisses revela sua identidade e dá início à narrativa de suas tribulações e trabalhos, desde a partida de Tróia.
O herói começa por dizer como arribou à costa da Trácia e saqueou a cidade de ismaro, sendo obrigado a reembarcar, devido à contraofensiva dos Cícones. Quando la dobrar o promontório Maléia, sopram ventos contrários, que o forçam a aportar, depois de nove dias de viagem na região dos Lotófagos, os comedores de loto, a planta que faz esquecer aos que dela provam o desejo de regresso. Por isso, apressa-se a abandonar a região e chega a uma ilha, situada em frente da terra dos Ciclopes. Aí deixa onze de suas naus. Com a única nau que lhe restou e doze companheiros, arriba ao antro do gigante Polifemo, que devora os estrangeiros e, no espaço de dois dias, devora seis dos companheiros de Ulisses. Contudo, ao anoitecer do segundo dia, Ulisses consegue embriaga-lo e vazar o único olho do gigante. Na manhã seguinte, o herói foge para a sua nau, juntamente com os sobreviventes. Desde o mar, dirige insultos ao gigante, privado da vista, o qual tenta em vão esmagar a nau com enormes blocos de pedra.

Ulisses na gruta de Polifemo. Jacob Jordaens, século XVI. Acervo do Museu Pushkin

Chegando na ilha de Éolo, Ulisses e seus companheiros são bem recebidos pelo guardião dos ventos, o qual lhes indica o caminho do regresso. Todavia, a curiosidade da tripulação, que abriu o odre dos ventos contrários, desencadeia uma tempestade e as naus volta a arribar à ilha de Éolo, que desta vez se nega a ajuda-los. Em seguida, aportam à região dos Lestrigões, povo antropófago, perdendo aí onze naus. A nau de Ulisses arriba à ilha Eéia, morada da feiticeira Circe. Na madrugada do quarto dia, o herói manda alguns de seus homens, sob a direção de Euríloco, obter informações. Circe ministra-lhes um filtro que os metamorfoseia em porcos, com exceção de Euriloco, o qual conta a Ulisses o sucedido. Graças ao auxílio de Hermes, que torna inúteis os sortilégios de Circe, o herói obtém que os companheiros recuperem a forma humana, conseguindo até que Circe se enamore dele.

Circe oferece uma poção aos companheiros de Ulisses, que assumem a forma animal. Vaso ático de figuras negras, de 550 a.C. Acervo do Museu de Belas Artes de Boston

Depois de chegar à terra dos Cimérios, na entrada do mundo subterrâneo, Ulisses degola as vítimas e recolhe o sangue delas numa cova. Em primeiro lugar, surge a alma de Elpenor, que reclama sepultura. Afastando-se de sua mãe, o herói ouve as predições de Tirésias, relativas às tribulações que o aguardam. A seguir, sua mãe dá-lhe noticias de Itaca. Depois de assistir a um desfile de heroínas, Ulisses dialoga com Arete, Equeneu e Alcino, que o decidem a retardar a partida e a retomar sua narrativa. O herói conta então as conversas que teve com Agamemnon, Aquiles e o silêncio de Ajax, um dos grandes heróis da Guerra de Tróia, que ficara ressentido contra o Odisseu. Passa-se assim à descrição dos infernos, de Minos, Oríon, Tício, Tântalo, Sísifo, Héracles. Assombrado pela afluência dos mortos, Ulisses volta à sua nau e desce o rio Oceano.

Tirésias aparece para Ulisses. Johann Heinrich Füssli, 1780-85


Voltando à ilha de Eéia, Ulisses presta honras fúnebres a Elpenor. Circe prediz-lhe os perigos que terá de afrontar durante a viagem de regresso à pátria. De início, a viagem marítima corre sem incidentes. Chegando à região das sereias, o herói, depois de se fazer atar ao mastro da nau e de ter tapado os ouvidos dos companheiros, ouve impunemente os pérfidos cantos delas. Ao chegar ao estreito entre os dois escolhos, Ulisses, a conselho de Circe, mantém-se mais próximo de Cila para evitar as Caribdes, criaturas marinhas protetoras dos limites territoriais no mar. O herói consegue safar-se incólume, sem todavia evitar que Cila, a bela ninfa que se transformou em um monstro marinho, lhe arrebate seis companheiros. Na ilha do Sol, Ulisses recorda as recomendações de Tirésias e só se detém a instâncias de Euriloco. Todavia, ventos contrários impedem que durante um mês a nau possa sair do porto de Messina. Entretanto, esgotam-se os mantimentos. Então, enquanto Ulisses dorme, seus homens matam e comem as vacas de Hélio. Em represália, Zeus desencadeia uma tempestade e lança um raio contra a nau. Ulisses é o único que se salva do naufrágio. Voltando a Caribdes e Cila, o herói transpoe o estreito, voga à deriva durante nove dias, até que o vento Sul o faz arribar a Ogigia, onde é recebido por Calipso.

Ulisses e as sereias, por John William Waterhouse, 1891

Parte III – Rapsódias XIII a XXIV
A vingança de Ulisses


Os assistentes ficam maravilhados com a narração de Ulisses e Alcino convida os príncipes a lhe oferecerem novos presentes de hospitalidade. Na tarde do dia imediato, Ulisses despede-se e, durante a noite, enquanto dorme, é transportado a staca. Tenda arribado à ilha, a tripulação acosta a nau ao porto de Fórcis e deixa o viajante sobre a praia, com todos os presentes que recebera. No regresso, não longe do porto, Posidon irritado com os Féaces por causa da ajuda que haviam dispensado a seu hóspede, metamorfoseia-lhes a nau em rochedo. Ulisses, ao despertar do sono, não reconhece a terra natal e pensa ter sido vítima de logro. Muito de propósito, Atena o envolveu num nevoeiro. A deusa aparece-lhe na figura de jovem pastor e, por seu turno, Ulisses, desconfiado, tenta fazer-se passar por um cretense fugitivo. A deusa recobra o seu verdadeiro aspecto e dá-se a conhecer, dissipa a nuvem, e Ulisses saúda a terra pátria. Atena exorta-o a que procure, antes de mais nada, o porqueiro Eumeu, que lhe permanecera fiel e faz que o herói tome ar de mendigo. Em seguida, parte para Lacedemônia, em busca de Telêmaco.

Ulisses e as sereias, por John William Waterhouse, 1891

Ulisses chega na choupana de Eumeu, que lhe serve uma refeição e queixa-se dos pretendentes, dizendo sentir saudades do amo, todavia ausente. O hóspede afirma que Ulisses não tardará em chegar. Mas o ancião nega-se a acreditar no que o estranho lhe diz, mesmo quando este presta juramento. Então, o herói dá começo a uma narrativa, meio fictícia, meio verdadeira, das aventuras, durante as quais pretende ter obtido informações do ausente. De novo Eumeu reitera sua incredulidade e o hóspede reafirma sua confiança. Os pastores voltam do campo. Eumeu imola um porco para a refeição noturna e em tudo procede como o chefe da familia. Como a estação está fria, Ulisses inventa uma narração, com o fim de sugerir ao velho porqueiro que lhe ofereça um manto para se agasalhar durante a noite.
Na Lacedemônia, Palas Atena procura Telêmaco, pois é tempo de ele regressar a Itaca. Os reis de Esparta enchem de presentes o jovem herói e, no momento da partida, Helena anuncia feliz presságio. Telêmaco, passando por Feras, dirige-se a Pilo, onde se separa de Pisistrato e embarca, sem ter visitado Nestor. Teoclímeno, fugitivo de Argos, ao vê-lo, sobe para bordo da nau. Ao anoitecer do segundo dia, Ulisses, ainda na choupana de Eumeu, interroga-o. O porqueio responde-lhe, informando-o sobre a vida do solitário Laertes e sobre a morte da mãe de seu amo. Conta como, apesar de oriundo de família principesca, foi raptado e vendido em Itaca. Na noite seguinte, Telêmaco arriba ao sul de Itaca, deixa Teoclimeno ir para a cidade e encaminha-se para a choupana de Eumeu.

Helena reconhece Telêmaco. Pintura de Jean-Jacques Lagrenée, 1795

Ao raiar da aurora, Telêmaco chega à choupana do porqueiro Eumeu, quando os demais pastores já tinham levado os porcos a pastar no campo. Os cães, com espanto de Ulisses, dão mostras de satisfação, ao darem pela presença de Telêmaco, que escapara à armadilha dos pretendentes. Eumeu recomenda ao hóspede que vá entretendo seu jovem amo e dissuade este de voltar a casa, porque só lhe poderá advir mal da insolência dos pretendentes. Então, dirige-se à cidade, a fim de comunicar a Penélope o feliz regresso do filho Ulisses, a quem Atena restituiu seu primeiro aspecto, dá-se a conhecer a seu filho. Pai e filho deliberam acerca da morte dos pretendentes. Telêmaco indica o número destes e dissuade o pai de se apresentar aos pretendentes em sua verdadeira figura. Ambos combinam que Ulisses deixará que o insultem até soar a hora da vingança. A notícia da volta de Telêmaco inspira aos pretendentes novos planos homicidas. Penélope censura Antino de ser o instigador da conspiração contra seu filho e Eumeu retorna à sua choupana

Ulisses sentado perto do fogo, enquanto o porqueiro Eumeu percebe Telêmaco na entrada de sua choupana. Obra do pintor alemão Bonaventura Genelli (1798-1868)

Na manhã seguinte, Telêmaco vai á cidade. Ao entrar no palácio paterno é saudado por Euricléia e por sua mãe, Penélope. Esta pede-lhe que conte a generosa hospitalidade que lhe foi dispensada por Menelau e Helena. Em seguida, o jovem herói dirige-se à ágora. Tenta convencer a mãe a que receba como hóspede o vidente Teoclímeno, o qual lhe confirma a próxima chegada de Ulisses a staca. Nesse momento, os pretendentes irrompem na sala, para se banquetearem. Entretanto, Ulisses e Eumeu encaminham-se para o palácio. A meio do caminho, Ulisses é insultado e maltratado pelo seu cabreiro Melântio. Eumeu e Ulisses chegam ao palácio. O herói só é reconhecido pelo seu velho cão Argos. A entrada do falso pedinte na sala do palácio dá azo a uma disputa entre Antino e Eumeu, na qual intervém Telêmaco. Ulisses é posto a ridículo por Antino, que lhe atira um escabelo à cabeça. Penélope acorre ao alarido e toma a defesa do estrangeiro. Quer mesmo interroga-lo, mas Ulisses, que tem razões de sobra para mostrar-se discreto, adia a conversa para a noite. Eur sozinho para o campo.

O cão Argos reconhece seu dono, Ulisses, após vinte anos ausente. Theodor van Thulden (1606 – 1669)

Enquanto Ulisses estende a mão aos pretendentes, aparece o mendigo Iro, que movido de inveja, pretende expulsá-lo do palácio. Os convivas divertem-se em fomentar a rixa. Trava se uma cena de pugilato, na qual Iro não leva a melhor. Ulisses arrasta-o por um pé para fora do palácio. O herói prediz a Anfinomo, um dos pretendentes, o próximo regresso do rei de itaca e as represálias que ele exercerá, mas a advertência é inútil. Penélope vem à sala, fala com Telêmaco e exorta-o a que se faça respeitar o infeliz hóspede. Engoda os pretendentes com a promessa de casamento para breve e aceita os presentes que eles lhe dão. Os pretendentes distraem-se jogando e dançando. Ulisses é ultrajado pela escrava Melanto e por Eurímaco, o qual também lhe atira um escabelo, mas sem o alcançar. Todos se retiram, depois que Telêmaco e Anfinomo acalmam os ânimos.
Depois de os pretendentes terem saído, Ulisses manda que seu filho esconda as armas que houver no palácio. Atena guia-o, empunhando um facho. Penélope repreende a escrava Melanto por haver insultado o mendigo. Ela interroga o estrangeiro acerca da sua naturalidade e, perante a recusa dele em responder, insiste de novo. Ulisses acaba por condescender e Penélope ouve com emoção a narrativa do hóspede, que declara ter visto Ulisses em Creta. A rainha põe à prova a sinceridade do mendigo, que lhe anuncia o próximo regresso de Ulisses. Penélope assim ordena à velha Euricléia que lave os pés ao mendigo. Euricléia então reconhece Ulisses por uma ferida que ele tem na perna. Ulisses intima-lhe que guarde silêncio. A rainha conta a Ulisses um sonho que parece anunciar o regresso do esposo. Propõe-se, com a aprovação do mendigo, estabelecer um concurso entre os pretendentes: casará com o vencedor.

A serva Euricléia reconhece Ulisses enquanto lavava seus pés


Ulisses não consegue dormir. Sente-se tentado a punir as escravas, mas contém-se e contemporiza. Penélope lamenta sua desgraça. Ulisses pede a Zeus que lhe envie dois presságios: sua prece é atendida. Telêmaco dirige-se à assembleia. As escravas procedem à limpeza da casa e os pastores chegam trazendo as vítimas. O cabreiro Melântio quer expulsar da casa o estrangeiro. O pastor Filécio interessa-se pelo infeliz estrangeiro e fala-lhe de Ulisses em termos comoventes. Um sinistro presságio inquieta os pretendentes, que desistem do projeto de matar Telêmaco. Este fala como dono da casa: ninguém insultará
impunemente seu hóspede. Após um sacrifico e a refeição, Agelau exorta os pretendentes a que se mostrem calmos e aconselha Telêmaco a apressar o casamento de sua mãe. Teoclímeno, hóspede da casa, levanta a voz e prediz a desgraça que impende sobre os pretendentes. A hora do castigo aproxima-se.
Buscando ao arco de Ulisses, Penélope convida os pretendentes a travar a luta. Eumeu dispõe os machados. Telêmaco esforça-se por retesar o arco paterno. Quase o consegue, mas a um sinal de Ulisses desiste. Os pretendentes fazem igual tentativa, mas sem resultado. Ulisses abandona a sala com Eumeu e Filécio, dá-se-lhes a conhecer e transmite instruções. Eurimaco tenta, por sua vez, vergar o arco, mas não o conseguindo, fica despeitado. Antino propõe que o concurso seja adiado para o dia seguinte. Ulisses pede que o deixem experimentar suas forças, mas Antino protesta. Telêmaco declara que só a ele compete dispor do arco. Eumeu entrega o arco a Ulisses, não obstante a gritaria dos pretendentes. Telêmaco ordena a Euricléia que feche as portas da sala, enquanto Filécio fechará as do pátio. Ulisses retesa então o arco e sua flecha e atravessa os orifícios dos machados perfilados.
Começa a matança dos pretendentes e Ulisses fere, em primeiro lugar a Antino. Os pretendentes ameaçam-no, mas ele dá-se a conhecer. Eurímaco solicita o perdão, alegando que Ulisses receberá larga indenização. O herói recusa e mata Eurímaco. Telêmaco mata Anfinomo e vai buscar as armas para seu pai, para si, para Eumeu e Filécio. Contudo, comete a imprudência de deixar aberta a porta do depósito. O traidor Melântio traz de lá as armas para os pretendentes, mas depois é atacado e amarrado pelos dois pastores. Atena aparece sob a figura de Mentor. Metamorfoseada em andorinha, assiste ao combate. A deusa mostra então sua égide, para o pavor dos pretendentes. Liodes pede, em vão, para que Ulisses The poupe a vida. São poupados unicamente o aedo Fêmio e o arauto Medonte. As doze mulheres culpadas são enforcadas por Telêmaco. Após o horrível suplicio de Melântio, Ulisses manda chamar Penélope e as escravas fiéis.

Ulisses e Telêmaco na matança dos pretendentes de Penélope. Pintura de Christoffer Wilhelm Eckersberg, 1814.

A velha Euricléia dá a Penélope a noticia do regresso de Ulisses, mas ela não acredita. Descendo à sala, onde se encontra seu marido, ora pensa em reconhece-lo, ora duvida. Telêmaco censura-a por sua incredulidade. Pai e filho combinam entre si a maneira de reprimir uma possível revolta dos itacenses. Em vista da descrição exata que Ulisses faz do leito conjugal, dissipam-se as dúvidas de Penélope. o herói conta então à esposa as predições que foram feitas por Tirésias. Ulisses e Penélope narram um ao outro os males sofridos. Na madrugada do dia seguinte, o herói vai visitar seu pai, Laertes.

Ulisses e Penélope, por Francesco Primaticcio, 1563


Hermes conduz à morada de Hades as almas dos pretendentes, que ai encontram Agamemnon e Aquiles conversando entre si. Anfimedonte, um dos pretendentes, interrogado por Agamemnon, conta como foi praticada a matança. Ulisses vai ao campo, onde mora Laertes e faz-se conhecer por seu progenitor. Na hora da refeição, chegam do Campo Dólio e seus filhos reconhecem Ulisses, exultando de contentamento. Entrementes, divulgou-se a notícia do morticínio. Eupites, seguido de seus partidários, marcha contra
a consulta Zeus, o qual deseja que volte a reinar a paz em staca. Trava-se a batalha, mas Eupites sucumbe. No desfecho do poema, Atena intervém e reconcilia os dois partidos.

O principal filme inspirado na “Odisseia” é a produção italiana “Ulysses”, de 1954. Dirigido por Mario Camerini e estrelado por Kirk Douglas (Ulisses), Silvana Mangano (Penélope) e Anthony Quinn (Antino), o filme manteve-se relativamente fiel ao texto de Homero, sendo considerado uma produção de luxo acima da média dos épicos produzidos na Itália naquele período.

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