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Bartholomew Roberts, o rei da pirataria

Ahoy!
Bandeira negra à vista!
Dentre todos os assuntos ligados à História Marítima, a pirataria é certamente um dos temas de maior apelo para o público em geral. Indubitavelmente, grande parte deste interesse deve-se à influência do cinema, em especial, às produções hollywoodianas, que do século passado ao atual despertaram através de inúmeros filmes o fascínio de diversas gerações para a história e os feitos dos ousados e temidos salteadores dos mares.
Destarte, atendendo aos milhares de entusiastas da matéria, Diário de Bordo estreia o tópico “Piratas & Corsários”, destacando a vida e a carreira de Bartholomew Roberts, o mais bem sucedido pirata da Era de Ouro da Pirataria.
As informações contidas no texto a seguir foram baseadas na obra “Uma História Geral dos Roubos e Crimes de Piratas Famosos”, do Capitão Charles Johnson, um contemporâneo dos principais piratas que aterrorizaram os mares no século XVIII.
Abra uma garrafa de rum e boa leitura!

Bartholomew Roberts em Ouidah, cidade da costa ocidental da África, na atual República de Benim, por volta de 1721/22. Seus dois navios aparecem em primeiro plano e, ao fundo, embarcações mercantes capturadas. Gravura de 1724, de Benjamin Cole (1695-1766).

Quem foi o Capitão Charles Johnson?

Em maio de 1724, apareceu nas livrarias de toda a Gra-Bretanha uma obra intitulada “Uma História Geral dos Roubos e Crimes de Piratas Famosos”, assinada por um obscuro Capitão Charles Johnson. Publicado pelo editor Charles Livington, de Londres, o livro (no original, em inglês, A General History of the Robberies and Murders of the most notorious Pyrates) logo tornou-se um best seller, ganhando quatro edições sucessivas (1° Edição na imagem abaixo), um segundo volume em 1726, vendendo mais de um milhão de cópias.

Escrita num estilo jornalistico e, de certo modo, sensacionalista, a obra de Johnson retratava as biografias e os feitos dos piratas mais famosos e temidos do Reino Unido nas primeiras décadas do século XVIII. Basicamente, trata-se da primeira crônica historiográfica de piratas, considerada até hoje a principal referência sobre os hábitos, os costumes e o comportamento desses bandoleiros de alto-mar, tanto para o mundo acadêmico, quanto para os filmes de Hollywood.
No livro de Johnson, os piratas são bandidos renegados, bem diferentes dos corsários da aristocracia Elizabetana, da Era dos Descobrimentos, no século XVI. Sir Francis Drake, Sir Walter Raleigh, Sir John Hawkins, todos eles atuavam com uma comissão da rainha, sendo . condecorados por suas ações. Os piratas biografados por Johnson, porém, eram perseguidos e seguidamente capturados pela Marinha Real Britânica, que os julgava, condenava e enforcava na beira do cais mais próximo.
O repentino sucesso da única obra escrita pelo Capitão Charles Johnson logo despertou a curiosidade de seus leitores e historiadores para sua identidade. A origem do autor é desconhecida e divergente entre diversos pesquisadores. Nos registros da Marinha Real Britânica consta o nome de um marinheiro chamado Charles Johnson, que serviu a cerca de 1700. Em Londres, havia outro Charles Johnson, um escritor de teatro de comédia, que por muito tempo apresentou a peça ‘o pirata de sucesso’, inspirada na vida do pirata Henry Avery. Mas, geralmente, se atribuiu o nome de Charles Johnson como um pseudônimo de Daniel Defoe, que escreveu várias novelas sobre piratas, inclusive sobre o próprio Henry Avery. O historiador David Cordingly, entretanto, afirma que Johnson realmente existiu. Philip Henry Gosse, por sua vez, levantou a hipótese de que Charles era em verdade um pirata, pois o “autor, embora insista em condenar aquele modo de vida, demonstra conhecimento, em detalhes, dos métodos, das regras e dos procedimentos de pirataria”

O escritor inglês Daniel Defoe (1660-1731). Para alguns estudiosos, o autor da célebre obra ‘Robinson Crusoé’ escreveu também “Uma História Geral dos Roubos e Crimes de Piratas Famosos” (A General History of the Robberies and Murders of the most notorious Pyrates), a primeira crônica historiográfica sobre piratas, assinando com o pseudônimo de Capitão Charles Johnson.

O Capitão Bartholomew Roberts e sua tripulação


Dentre os 19 capitāes piratas comentados em seu livro, Johnson dedicou a “Bartholomew Roberts e tripulação’ o maior número de páginas. Além da história, narrada como novela reportagem, o relato é todo documentado com cartas de capitães e governadores, proclamações de perdão real, ordens de captura emitidas pela Justiça, o indiciamento, bem como, discursos e testemunhos do julgamento dos piratas que faziam parte da tripulação. Muito provavelmente, sem a obra de Johnson, uma densa névoa encobriria a história do mais próspero pirata da Era de Ouro da Pirataria

Capitão Bartholomew Roberts (1682-1722), segundo gravura da obra do Capitão Charles Johnson.

Antes da pirataria


Bartholomew Roberts nasceu em 1682, em Casnewydd-Bach, entre Fishguard e Haverfordwest, no condado de Pembrokeshire, sudoeste do País de Gales. Seu nome de batismo era John Roberts, ao que tudo indica, filho de George Roberts. Os piratas costumavam usar pseudônimos e especula-se que Bartholomew fora escolhido em
homenagem póstuma ao bucaneiro Bartholomew Sharp.
Algumas fontes afirmam que Roberts iniciara sua aprendizagem como marinheiro por volta dos 13 anos de idade. Presume-se ainda que serviu na Marinha Real Britânica entre 1702 e 1713, participando das operações navais da Guerra da Sucessão Espanhola. Ao término do conflito, trabalhou como tripulante nos navios negreiros que transportavam escravos da Africa para as Américas, destino seguido por muitos dos marinheiros desempregados ao fim da guerra.

Memorial dedicado a Bartholomew Roberts, em Casnewydd-Bach. “Nesta vila nasceu o famoso pirata Black Bart”, diz a placa. ‘Black Bart’ (Barti Ddu, em galês) era o cognome de Roberts, embora nunca mencionado em seu tempo.
Memorial dedicado a Bartholomew Roberts, em Casnewydd-Bach. “Nesta vila nasceu o famoso pirata Black Bart”, diz a placa. ‘Black Bart’ (Barti Ddu, em galês) era o cognome de Roberts, embora nunca mencionado em seu tempo.


O ingresso na pirataria


As primeiras referências às atividades piratas de Bartholomew Roberts remontam ao ano de 1718, oriundas de uma crônica escrita pelo pirata John Plantain, relatando uma viagem entre Rhode Island (EUA) e a África, na qual o nome de Roberts é aludido. O testemunho descreve uma desavença entre o galês eo pirata Edward England, também parte do grupo, o que constitui um possível indício de que já estaria previamente envolvido na pirataria ou que, pelo menos, manteria relações pessoais anteriores no meio.
Segundo o Capitão Charles Johnson, entretanto, “Bartholomew Roberts velejava em emprego honesto, como segundo oficial do ‘Princess’, de Londres, sob o comando do capitão Plumb, desde novembro de 1719, quando saiu da Inglaterra, chegando na Guiné em fevereiro do ano seguinte”. De acordo com o autor, Plumb vinha comprar escravos na ilha de Annabona, no Golfo da Guiné, sendo capturado pelo capitão Howell Davis, por curiosidade, um dos 19 piratas biografados por Johnson, exatamente no capitulo precedente a Roberts.
Após o apresamento, seguindo a prática usual para com a tripulação apresada, Davis convidou os marinheiros que o quisessem acompanhar a juntar-se à sua própria tripulação. Contudo, consoante a versão de Johnson, Roberts tornou-se a princípio “um membro forçado do bando de Davis, sendo totalmente contra aquele tipo de vida. Certamente teria fugido, se uma boa oportunidade se apresentasse. Mais tarde, porém, mudaria seus princípios. Ao contrário da maioria, porém, não foi por ambição, favoritismo ou proteção. Isso era justamente o que não gostava na vida dos renegados. Para ele, era difícil conciliar sua consciência com crimes cometidos por ordens de outro pirata, seu comandante”.

Capitão Howell Davis (1690-1719), segundo gravura da obra do Capitão Charles Johnson.

Morte do Capitão Howell Davis


Em junho de 1719, o capitão Howell Davis e sua tripulação encontravam-se na Ilha do Príncipe, então colônia portuguesa, situada no Golfo da Guiné, costa ocidental da África. Ao primeiro contato com os portugueses, Davis apresentou-se como um comandante da “Royal Navy’ (Marinha Real Britânica) à caça de piratas. O plano visava disfarçar as reais intenções de pilhagem, mas revelou-se um fracasso para os salteadores. Um negro português prisioneiro de Davis fugira do navio durante a noite, contando aos soldados portugueses os verdadeiros objetivos dos ingleses. Utilizando os mesmos métodos do capitão pirata, o governador da Ilha do Príncipe fingiu ignorar o sucedido e convidou os forasteiros para um banquete. Os piratas aceitaram sem suspeitar de nada, mas apenas um deles voltou a bordo, porquanto a caminho da residência oficial foram surpreendidos e fuzilados por um pelotão de soldados.
Sobre o episódio, assim relatou o Capitão Charles Johnson em seu livro: “Todos morreram na hora, menos Davis, que caiu ferido, de barriga aberta, e um outro, que fugiu pelo mato. Mais tarde, chegaria à praia, roubaria um bote e voltaria para o navio. Davis também tentou se levantar para fugir, mas estava muito fraco e caiu. Antes de perder os sentidos, ainda teve forças para sacar uma pistola e disparar contra os portugueses, feito um galo de rinha, que dá um último golpe antes de perder os sentidos, como quem anuncia que seu sangue ainda será vingado”.

Capitão Howell Davis (1690-1719), segundo gravura da obra do A morte do Capitão Howell Davis, em emboscada portuguesa na Ilha do Príncipe, costa ocidental da África, em 19 de junho de 1719.

A eleição de Bartholomew Roberts

O extermínio de Davis pelos portugueses deixou seu bando sem capitão. Apareceram dois ou três candidatos, homens que se distinguiam aos olhos dos outros, ostentando títulos de lorde outorgados pelo falecido comandante. Nenhum, porém, convencia a maioria. A tripulação, por sua vez, sentia-se debilitada, sem um governador que pusesse ordem nos navios. Vendo excessiva ambição nos olhos dos outros, um certo Lorde Dennis resolveu intervir. Em seu discurso, destacou que precisavam de um capitão, pouco importando quem fosse, pois toda decisão sua teria que ser aprovada pela maioria do barco, cuja tripulação era soberana, podendo seguir ou desacatar qualquer ordem.
“Nós, os homens a bordo, somos a origem de todo o poder do capitão”, disse, acrescentando: “Nós podemos destituir do cargo qualquer petulante que exceda sua autoridade. Se resistir, podemos executá-lo e jogá-lo no mar, para que sua memória sirva de aviso a seus sucessores. Assim, meu conselho é que escolhamos um homem de coragem, mais ou menos honesto, enquanto ainda estamos sóbrios”.
E continuou Lorde Dennis: “O capitāo deve ser bom navegador, de bravura reconhecida por todos. Alguém capaz de acabar com as trágicas consequências da anarquia a bordo. O mestre principal tem que saber o que fazer diante de temnectades acidentes
e calamidades. Para mim esse homem é Bartholomew Roberts. Um sujeito admirável! Em todo e qualquer
respeito, muito digno da nossa estima e preferência”.
O discurso foi aplaudido com estardalhaço por todos e Roberts terminou eleito, quando ainda não contava dois meses na companhia. A escolha foi confirmada pelos lordes do conselho do capitão e ele aceitou a honra, dizendo:
“Uma vez com as mãos na lama, sei que serei
melhor comandante do que marinheiro”.

Vingança sobre os portugueses


Definido o novo comandante e escolhidos os novos oficiais no lugar daqueles mortos pelos portugueses, a companhia resolveu se vingar da morte do capitão Davis. Cerca de 30 homens se ofereceram para a tarefa e retornaram para atacar o forte. Depois de desembarcarem, aproximaram-se da muralha e escalaram-na, subindo um nas costas dos outros. Entraram pelo buraco de um canhão que fora retirado para reparos, chefiados por um tal Kennedy, sujeito ousado, mau e pervertido. Para distrair a guarda, o navio ficou disparando contra o forte, ainda que estivesse fora do alcance de seus canhões. Mesmo assim, os invasores foram descobertos. Os soldados, porém, abandonaram seus postos e fugiram para a cidade, onde os portugueses do lugar também se alarmaram, sem saber o que fazer. Os piratas, então, avançaram sem oposição. Botaram fogo no forte e jogaram os canhões no mar.
O resto da tripulação achou que o castigo não fora suficiente para vingá-los da perda que sofreram. A maioria queria incendiar a cidade inteira. Roberts concordou, desde que alguém tivesse um plano que não levasse toda a companhia à destruição, já que a cidade estava em posição muito mais protegida que o forte. Cercada por mata espessa, só poderia ser atacada de frente, onde a guarda municipal teria todas as vantagens, com trincheiras mais altas e bem disfarçadas. Para ele, um ataque ali era temerário. Além disso, aquelas casas de alvenaria com paredes nuas ofereciam uma magra recompensa para todo o trabalho e custo de sua conquista.
Prevaleceu o bom senso do capitão. Um grupo de inconsoláveis, entretanto, pegou um navio francês de 12 canhões apreendido na entrada do porto e voltaram ao porto despertar suspeitas até chegarem perto, quando descarregaram suas armas, destruindo várias casas e fugindo em seguida. Devolveram o barco francês à sua tripulação original e saíram da baía, contemplando a cidade em ruínas, sob as luzes de dois barcos portugueses em chamas, que tinham queimado ao sair do porto. O capitão Howell Davis estava vingado.

A primeira Jolly Roger (bandeira pirata) de Bartholomew Roberts, onde o capitão galês e a morte seguram uma ampulheta.


Rumo do Brasil


Da Ilha do Principe, Roberts e sua tripulação continuaram navegando pelo Golfo da Guiné, afastados da costa. Naquela região, capturaram um barco holandês e saquearam-lhe a carga, devolvendo a depenada embarcação ao seu mestre. Dois dias depois, em Cabo Lopez, apreenderam um navio inglês, o “Experiment”, do capitão Cornet. Sua tripulação inteira aderiu aos piratas, queimando o navio apresado, para o qual não tinham mais utilidade. Seguiram assim para São Thomé, mas sem encontrar nada pelo caminho, velejaram para Annabona, onde reabasteceram o navio de água e mantimentos. O próximo itinerário fora levado em votação. Uns queriam ir para as Indias Orientais, outros para o Brasil. Escolhido o segundo destino, atravessaram o Atlântico em 28 dias, alcançando o arquipélago de Fernando de Noronha, então uma ilha inabitada. Em terra, buscaram água e, após repararem o navio dos estragos da viagem, desceram ao sul.

Aspecto de Salvador, a primeira capital do Brasil, no início do século XVIII, quando Bartholomew Roberts e sua tripulação passaram pela Baía de Todos-os-Santos. Ilustração do engenheiro militar, explorador e botânico francês Amédée François Frézier (1682-1773).

A grande façanha


Consoante o relato do Capitão Charles Johnson, “Bartholomew Roberts e sua corja de renegados ficaram nove meses percorrendo a costa do Brasil, sempre afastados o suficiente para não serem vistos da terra. Sem encontrar uma vela que fosse, ficaram muito desanimados e resolveram mudar de rumo, subindo a norte para as Indias Ocidentais, à procura de um porto para saquear”.
O alvo escolhido pelos piratas foi a Baía de Todos-os-Santos, aonde inesperadamente surgira uma grande frota mercantil portuguesa composta por 42 navios, em viagem para Lisboa. Várias embarcações eram cargueiros de porte à espera junto com as demais de dois men-of-war (navios de guerra de grande poder de fogo, segundo a terminologia de época da Royal Navy), armados com 70 canhões cada um, que protegeriam o comboio. Roberts achou a empresa deveras difícil e arriscada, mas ousado como sempre, concordou em “fazer as compras” naqueles barcos.
Escondendo seus homens no porão do navio, o capitão pirata aproximou-se da frota portuguesa, como se buscasse proteção. Próximo a uma embarcação mais pesada, fez sinal pedindo ajuda. A tripulação acudiu, lançando ganchos e cordas para Roberts prender seu barco. Alguns piratas escalaram a lateral do navio pelas cordas e pegaram todos a bordo de surpresa. Presos, os portugueses foram levados para o barco pirata sem nenhum alarde. Pareciam mesmo dispostos a ignorar as ameaças de morte caso abrissem a boca, mas os ameaçadores cutelos brilhando no ar mantiveram a situação sob controle dos assaltantes.
Roberts recebeu-os a bordo com uma saudação cordial. Apresentou-se como um navegante aventureiro e não um criminoso. Prometeu nenhum mal fazer caso dissessem qual dos barcos tinha a carga mais valiosa. Os presos ganhariam a liberdade e o navio de volta se levassem os piratas até a presa mais rica, como se fossem velhos conhecidos. A recusa em colaborar seria respondida com execução sumária, poupando-lhes maiores sofrimentos. Nestes termos, o mestre português apontou para um navio muito possante, o galeão ‘Sagrada Familia’, armado com 40 canhões e 150 homens a bordo. Roberts, porém, não se intimidou e mandou seus homens irem até lá no barco apreendido, seguindo atrás o próprio capitão. Com o galeão português na frente, a frota foi abrindo caminho para os piratas sem nada desconfiar.

“Bartholomew Roberts”, óleo sobre tela de Carlos Alfredo Hablitzel (1919-1988), retratando a maior façanha do temível capitão pirata, o assalto ao galeão português ‘Sagrada Família’, na baía de Todos-os-Santos, em 1719. Acervo do Museu Marítimo de Santos.

Ao chegarem na presa mais valiosa, o mestre recebeu ordens para perguntar como passava o senhor capitão, convidando-o para vir a bordo conhecer um velho amigo e tratar de uma questão da maior urgência. Os piratas ficaram esperando pela resposta, mas a demora e a agitação que se seguiu a bordo alertou-lhes que os portugueses tinham desconfiado do convite e estavam tentando ganhar tempo para se defenderem. Roberts adiantou-se e ordenou a seus homens jogarem-se no mar para capturarem o galeão no corpo-a-corpo. Nadando, escalaram as laterais e invadiram o convés, degolando os vigias sem barulho. Após um combate curto e sangrento, muitos portugueses cairam mortos e apenas duas baixas tiveram os piratas.
A peleja a bordo do ‘Sagrada Família’ despertara a atenção dos demais navios do comboio, que trocando sinais, abriram as velas e se afastaram com os canhões cuspindo balas. Nesse instante, apareceram os esperados men-of-war, que os acompanhariam a Portugal e que se apressaram para vir em socorro do barco assaltado. A fuga das demais embarcações portuguesas, entretanto, atravancou o caminho dos men-of-war, perm Roberts escapar com a presa maior.
O porão do Sagrada Familia’ estava abarrotado de açúcar, peles e tabaco, além de mais de 40 mil moedas de ouro, correntes cravejadas de pedras preciosas e adornos de valor considerável. O objeto mais valioso da carga, contudo, era uma cruz de diamantes, que os capitāes do Brasil mandavam para o rei João V de Portugal. Segundo Charles Johnson, “por mais que os piratas) gostassem desta joia rara, terminaram dando-a de presente ao governador da Guiana, como reconhecimento a favores prestados quando da passagem da tripulação por aquela região.


A traição de Walter Kennedy


Eufóricos com a proeza do saque ao “Sagrada Família’, os piratas comandados por Roberts discutiram sobre um refúgio seguro, no qual pudessem se entregar aos prazeres que o dinheiro conseguisse comprar. O lugar escolhido foi a Ilha do Diabo, no rio Suriname, na costa da Guiana. Ao chegarem lá, foram recebidos com toda a cordialidade, tanto pelo governador holandês, quanto pela feitoria. Especialmente as mulheres locais muito se interessaram pelos utensílios domésticos distribuídos pelos piratas, que ali mantiveram por algum tempo intenso comércio.
No rio Suriname, os piratas souberam da proximidade de um bergantim de Rhode Island, carregado de provisões e mantimentos. Como estavam ficando sem comida e apetrechos de navegação, o navio em questão era muito bem-vindo!
O vigia do navio de Roberts gritou “vela à vista” e o capitão supôs ser o bergantim, decidindo verificar por si mesmo. Levando consigo 40 homens, saiu em perseguição à embarcação num escaler. Na pressa, porém, cometera o comandante um erro grave: esqueceu-se que a captura poderia demorar além do planejado e que podia faltar água e comida para todos. O imprevisto aconteceu, pois o bergantim velejava bem, afastando-se dos piratas, que permaneceram no encalço por 8 horas, lutando o escaler contra correntes e ventos adversos.
Os piratas terminaram se afastando umas 30 milhas a sotavento e a corrente da costa não permitia que voltassem para junto de seu barco. Roberts ancorou para passar a noite e enviou um bote para avisar os companheiros do sucedido, pedindo resgate. No dia seguinte, a água acabara e nenhuma praia havia onde pudessem desembarcar. Sem saber como nem onde se reabastecerem, esperavam pela vinda do navio maior, mas o mau tempo não colaborava.
Como Tântalo, da mitologia grega, ficaram morrendo de sede e fome, diante de matas frutíferas e lagos de água doce inacessíveis, mas à vista no horizonte. Como medida extrema, arrancaram as madeiras do assoalho da cabine, amarrando as tábuas em barricas vedadas e fizeram uma balsa, remando até a costa. Depois de alguns dias, o bote voltou sem o navio e com péssimas notícias: Kennedy, que era lugar-tenente de Roberts, fugira com a presa, riqueza e o barco do capitão. Furiosos, os piratas perderam a voz gritando todo tipo de ameaça e palavrões contra o que consideravam um ato gratuito de traição. Em meio às imprecações, juravam fazer picadinho de Walter Kennedy.

Em seu livro, o capitão Charles Johnson dedica “uma ou duas páginas a esse famigerado Walter Kennedy”. O pirata traidor é retratado na obra como um homem que “não valia o que comia, um batedor de carteiras nas ruas de Londres durante a infância, um ladrão e arrombador antes de entrar na pirataria, atividades que os lobos-do-mar consideravam muito abaixo da sua”. E acrescentou: “Kennedy não sabia ler nem escrever, quanto mais usar um instrumento de medição. Fora elevado ao comando (do navio usurpado de Roberts) exclusivamente pela coragem, a qual de fato demonstrou sempre que necessário. Era, entretanto, um grande fingidor”.
Depois da fuga com o barco do capitão Roberts, Kennedy velejou para Barbados e Jamaica, perdendo em ambos os locais alguns de seus companheiros piratas, que resolveram abandonar a companhia. Atravessando o Atlântico, prometera à tripulação remanescente atingir a Irlanda, mas um erro de rota levou o navio até a Escócia. “Lá (prossegue Johnson) a fúria do mar e do vento jogou-os de uma ilha para outra, até não saberem mais onde se encontravam”.
Na Escócia, Walter Kennedy fugiu com alguns poucos companheiros à procura de um porto, onde embarcaram para a Irlanda, abrindo ali um armazém para revenda de artigos estrangeiros. Denunciado por uma de suas criadas domésticas por receptar os frutos de um roubo, foi preso e julgado pelas autoridades britânicas. Segundo Johnson, “o pirata notório e conhecido delinquente foi condenado à morte (na forca), com execução realizada no dia 19 de julho de 1721, na Doca de Execução de Londres”. Um final certamente mel tivesse caído nas mãos da tripulação leal a Roberts, sequiosa por esquartejá-lo, em seus planos de vingança.

Jolly Roger do pirata Walter Kennedy (c. 1695-1721)


O contrato


A traição de Walter Kennedy reduzirá a tripulação de Bartholomew Roberts à apenas 45 homens, então abandonados na costa da Guiana. Antes de se lançar em novas aventuras, precavido pela amarga experiência, o capitão passou a exigir que os homens assinassem um contrato, jurando sempre agir pelo bem de todos e não permitir a contratação de irlandeses, a quem considerava traiçoeiros depois do ocorrido com Kennedy. “Como o capitão esperava fazer os homens honrar esse juramento, eu não sei dizer”, escreveu Charles Johnson. “Mesmo assim, apresento a seguir os artigos do contrato, obtido por informações dos próprios piratas, acrescentando alguns comentários em parênteses”:


ARTIGOS DO CONTRATO DA COMPANHIA DE BARTHOLOMEW ROBERTS

  1. Cada homem tem direito a voto nas decisões da companhia, além de direito a ração diária de comida e bebida forte, para consumi-las quando queira, a não ser que a escassez torne necessário, para o bem de todos, que se faça um racionamento. Cada homem que se destaque em serviço deverá ser nomeado pelo Conselho de Recompensa. Nesta ocasião, além da cota a que tem direito, pode pedir a troca de capote ou patente.
  2. Todo aquele que defraudar a companhia do valor de um dólar, seja em prata, jóias ou dinheiro, será punido com o desterro, em ilha ou cabo desolado e inabitado, com um revólver, algumas balos, uma garrafa de água e outra de pólvora, cabendo o ele sobreviver ou morrer de fome. (Se o roubo fosse entre marinheiros, a vítima podia tirar satisfação, quebrando o nariz ou arrancando as orelhas do culpado, antes de deixá-lo em lugar inabitado).
  3. Ninguém pode jogar cartas ou dados a dinheiro.
  4. As velas e candeeiros devem ser apagados às oito da noite. Se algum tripulante, depois daquela hora, ainda tiver vontade de beber, deve fazê-lo no convés descoberto. (Isto era uma tentativa de Roberts, um homem sóbrio, para conter o deboche e a intriga entre os bêbados, algo que se revelaria impossível).
  5. Todos devem manter suas armas, pistolas e cutelos limpos e prontos para o serviço. (Nisso, os piratas eram extravagantemente cuidadosos. Esforçavam-se para se superarem na beleza e precisão de suas armas. As vezes, leiloavam as melhores do alto do mastro, com as pistolas valendo de 30 a 40 libras o par. Algumas eram pistolas trabalhosamente ornamentadas para entrar em serviço, com fitas coloridas sobre seus cabos, enfeites peculiares que lhes davam muito orgulho).
  6. Não é permitida a presença de mulheres ou meninos a bordo. O homem pego seduzindo uma mulher e trazendo-o a bordo disfarçada será condenado à morte. (Assim, se uma mulher caisse
    les imediatamente colocavam uma sentinela a seu lado para prevenir as consequências nefastas e perigosas da discórdia entre os demais sobre o que fazer com ela. Aqui, porém, dava-se a grande patifaria. A tripulação escolhia a sentinela, que terminava se revelando o mais abusado de todos, pois protegia a virtude da senhora das investidas dos outros, não deixando que ninguém a tocasse, exceto ele mesmo).
  7. Abandonar o navio ou seus compartimentos em combate será punido com a morte ou desterro.
  8. É proibido brigas a bordo. Toda disputa entre homens deve ser resolvida em terra, com pistola e espada. (Isso se dava da seguinte maneira: o mestre quarteleiro, não conseguindo reconciliar as partes, leva os dois até a praia, contando com a assistência que lhe parecer adequada. Coloca os contenciosos de costas um para o outro a uma certa distância entre si. Ao dar o comando, os dois se voltam e disparam imediatamente, ou a arma é arrancada de suas mãos. Se os dois errarem o tiro, devem sacar seus punhais, sendo declarado vitorioso quem
    fizer o outro sangrar primeiro).
  9. Nenhum homem pode deixar a companhia antes de acumular cota num valor de mil libras. Nisso, incluem-se as compensações extras. O homem que perder um membro ou ficar aleijado em serviço receberá 800 dólares, retirados do tesouro comum, com os ferimentos menores sendo recompensados proporcionalmente.
  10. O capitão e mestre quarteleiro receberão cota dupla de cada espólio capturado. O mestre, o barqueiro e o canhoneiro, uma cota e meia; os outros oficiais, uma e um quarto.
  11. Os músicos têm descanso no sábado, não recebendo qualquer favor especial nos outros seis dias e noites.
    Recompondo as perdas
    Uma vez estabelecidas as regras de conduta da nova companhia, o capitão destacou as desvantagens com que entravam em ação, por disporem apenas de um barco pequeno e mal equipado, sem provisões ou mantimentos. Para remediar a situação, resolveram seguir pelas ìndias Ocidentais, certos de que lá encontrariam uma presa com tudo que lhes faltava.
    Na latitude da ilha Deseada, interceptaram duas chalupas, que os abasteceram de comida e outras necessidades. Poucos dias depois, capturaram um bergantim de Rhode Island e foram para Barbados. Perto daquela costa, deram-se com um navio de Bristol de dez canhões, que chegava da Europa abarrotado de roupas finas e algum dinheiro. Recolheram 25 fardos de mercadorias, cinco barris de pólvora, um cabo, rolos de cordas, dez cascos de farinha de aveia, seis barricas de carne defumada e muitas outras coisas, além de cinco novos membros para a companhia. Liberaram o barco para seus mestres apenas três dias depois.
    Após trocarem tiros e escaparem de uma renhida perseguição encampada por um galeão e uma chalupa enviados pelo governador de Rhode Island, Roberts e sua tripulação navegaram para a Dominica, nas Pequenas Antilhas. Naquela ilha, conseguiram água e fornecedores de alimentos, trocando por comida as mercadorias que lhes restavam no porão. Também 13 ingleses desterrados de um navio da Martinica, capturado pela “Guarda de La Costa”, juntaram-se voluntariamente aos piratas, que ali não ficaram muito tempo. Velejando até a ilha de Granada, tiveram seu esconderijo descoberto pelos colonos franceses, os quais destinaram um mensageiro para o governador da Martinica, que imediatamente despachara duas chalupas para sair no encalço dos forasteiros. Por uma questão de horas, os piratas lograram escapar.
    “Saindo em busca de um porto que lhes provesse com o que mais sentiam falta, vinho e mulheres”, nas palavras de Charles Johnson, Bartholomew Roberts e tripulação
    rumaram para a ilha da Terra Nova (Newfoundland), Canadá, chegando às suas margens no final de junho de 1720. Entraram no porto de Trepassey com a bandeira negra no alto do mastro, rufando tambores e soando trombetas. Contaram vinte e dois navios ancorados sem tripulação a bordo, Os poucos sentinelas fugiram para a costa ao verem os piratas.
    “É impossível reconstruir os detalhes da destruição e pandemônio que causaram”, prossegue Johnson. “Queimaram e afundaram todos os barcos, exceto um galeão de Bristol. Invadiram plantações, danificaram lavouras e redes de pesca, sem qualquer remorso ou consideração. Nada é mais deplorável do que o poder em mãos avaras e ignorantes. Os homens de Roberts, sentindo-se invencíveis, tornaram-se caprichosos e prepotentes, pouco se importando com o sofrimento que infligiam a seus semelhantes. Riam das malvadezas que cometiam enlouquecidos. Disparavam seus arcos e matavam a muitos, querendo que ressuscitassem depois, como se tudo fosse uma brincadeira”.
    Concluída a devastação do porto e arredores, Roberts incorporou o galeão de Bristol à companhia, instalando nele mais 16 grandes canhões retirados de outros barcos. Pela costa, encontrou nove ou dez barcos franceses, os quais destruiu, menos um de 26 canhões, que trocou pelo seu galeão com os franceses. Batizando-o de ‘Fortune’, partiu acompanhado de sua velha chalupa. A tripulação pirata estava orgulhosa com seu novo barco.
O Mar do Caribe e a costa ocidental da África foram os locais mais frequentados por Bartholomew Roberts e sua tripulação, mas os piratas atuaram também no Atlântico Norte. Na foto, vista atual de Trepassey, na Terra Nova, Canadá. Em meados de 1720, a pequena comunidade pesqueira foi aterrorizada pela companhia de Roberts.

Novas presas


Na sequência de sua carreira de saques e depredações, Bartholomew Roberts e sua tripulação não demoraram a fazer novas vítimas, como o “Richard’, de Bideford, o “Willing Mind’, de Poole, o ‘Expectatian’, de Topsham e o luxuoso “Samuel’, do capitão Cary, de Londres. Devido ao entusiasmo das tripulações desses barcos com a vida na pirataria, Roberts permitiu que entrassem na companhia, menos os capitāes.
No dia 16 de julho, tomaram outro navio, o ‘Little York’, de Virginia. Em seguida, foi a vez do ‘Love’, de Liverpool. Não passou um dia completo e capturaram o “Phoenix”, de Bristol. O próximo foi um bergantim chamado “Sadbbury’. Ao deixarem as margens da Newfoundland, seguiram para as Indias Ocidentais. No meio do caminho, começaram a faltar coisas a bordo. Esperando encontrar um navio com “carga consignada para nós” (como diziam no seu jargāo), seguiriam para a África.
Naquele momento, porém, faltou-lhes a sorte de costume. Sem nenhuma presa para atacarem, procuraram assistência junto ao governador de São Cristóvão, esvaziando seus canhões contra a cidade e incendiando dois barcos como resposta à falta de colaboração. Ainda nas Pequenas Antilhas, refugiaram-se na ilha de São Bartolomeu, onde foram surpreendentemente bem tratados, obtendo mantimentos, bebendo e pagando bem pelos favores prestados pelas mulheres locais “com suas roupas provocantes e comportamentos insinuantes”, na expressão de Johnson.
Na hora de partir, resolveram por unanimidade ir até a costa da Guiné. A caminho, encontraram um navio francês da Martinica, ricamente carregado. Não satisfeitos com a carga, acharam que o próprio barco era bom demais para o que fazia. Os piratas trouxeram então suas coisas a bordo da embarcação saqueada e mandaram os franceses levarem as suas para o outro barco. Assim, nesta troca forçada, Roberts assumiu o comando do que chamaria de “Royal Fortune’.


Fome, sede e mortes a bordo

No comando de uma imponente esquadra, o capitão pirata seguiu rumo à Guiné. Antes de chegar na costa da Africa, no entanto, sugeriu passar por Brava, a ilha mais ao sul de Cabo Verde, para limpar e arrumar os barcos.
No caminho, por estupidez do piloto, seguiram demais a sotavento e não conseguiram chegar nem na ilha, nem no continente. Perderam muito tempo tentando corrigir o erro e desistiram quando os mantimentos começaram a escassear, obrigando-os a seguir a oeste, para as Indias Ocidentais, aonde mais uma vez chegaram bem perto da destruição total. O Suriname foi o destino preferido. Ficava a menos de 700 léguas, mas não tinham mais do que uma cabeça-de-porco de água para dar de beber a 124 homens durante a travessia. Para piorar, uma prolongada calmaria convenceu-os de que não chegariam a lugar algum.
Cap-Charles Johnson

Assim descreveu o Capitão Charles Johnson em seu livro a crítica situação de Bartholomew Roberts e sua tripulação conforme os dias passavam sem vento:
“Os piratas estavam desesperados a procura de terra firme. Sem uma miraculosa intervenção da Providência, a única escolha que viam pela frente era acabar com a própria vida ou definhar de sede e fome. Com muito esforço, mantinham os barcos em curso. Cada homem tinha direito a apenas uma boca cheia de água por dia. Muitos bebiam a própria urina. Outros, a água do mar que, ao invés de saciar o corpo, dava uma sede insaciável. Os que insistiam terminavam esvaindo-se em corrimentos e disenterias que lhes
ressecavam por dentro, até ficarem pele e osso no chão. Todo dia morria alguém a bordo. Os que se aguentavam melhor nessa miséria eram os que jejuavam, evitando todo tipo de alimento, exceto uma bocada ou duas de pão por dia, mais a bochecha de água. A cada dia estavam mais perto do momento em que não haveria mais do que um gole, depois uma gota de água para cada um. Sem nada que umedecesse a boca, não conseguiam mais nem falar”.
Ainda de acordo com o autor, os piratas “foram salvos por uma ventania seguida de temporal e tempestade que, feito obra do anjo do mal, os deixou com terra à vista”. Tal alegria eclodiu a bordo que “o capitão até dividiu com todos a última garrafa de rum, que guardara para o momento final”. Estavam na boca do rio Meriwinga, na costa do Suriname.


Ódio e sede de vingança

Logo que se sentiu fisicamente refeito, Roberts tomou a latitude de Barbados, mas outra vez perdeu-se no mar, consumindo o último grão de arroz sem encontrar uma presa para se reabastecer. No último minuto, alcançaram um navio cuja carga correspondia perfeitamente às suas necessidades. Em seguida, capturaram outro, o bergantim ‘Greyhound’, a caminho da Filadélfia. Todos a bordo assinaram contrato voluntariamente com a companhia, rebatizando o barco de “Ranger’, principal acompanhante do “Royal
S. No primeiro navio, encontraram os mantimentos que faltavam; no bergantim, o barco e os homens que queriam.
Os piratas, então, resolveram ir buscar água em Tobago. Só lá ouviram falar das chalupas à sua procura. Decidiram assim velejar direto para a Martinica com toda a esquadra, dispostos a ensinar uma lição para o governador. Na Martinica, era costume os barcos recolherem a bandeira antes de entrar num porto. Isto facilitava o anonimato dos traficantes e atravessadores que comercializavam com a ilha. Roberts conhecia a senha. Tinha ódio mortal de holandeses e franceses, o que desviou seus pensamentos do roubo para malvadezas. Entrou no porto com a bandeira recolhida e, conforme imaginara, foi recebido com um bom mercado para as coisas que trazia. Os ilhéus não escondiam sua felicidade, despachando lanchas e barcaças de compradores até os navios.
O capitão convidava-os a subirem a bordo, prendendo-os, um depois do outro, assim que pisavam no convés. Dizia que a sua companhia viera de muito longe para sair dali de mãos vazias. Mandou deixarem suas joias e dinheiro em cima de uma mesa, enquanto o barqueiro recolhia as mercadorias que trouxeram para oferecer. Acusando-os de comerciantes desonestos e traficantes, reservou um barco para levar os presos e passageiros de volta a terra e afundou os outros a tiros, num total de 20. O pirata não escondeu que sua raiva fora alimentada pelos governadores da Martinica e de Barbados, com suas tentativas para suprimi-lo. Mandou a companhia redesenhar a sua insignia. A nova bandeira passou a ter a silhueta de duas caveiras pisoteadas por um homem. Embaixo delas, as inscrições A.B.H e A.M.H, significando “A Barbadian’s Head” (uma cabeça de Barbados) e “A Martiniquian’s Head” (uma cabeça da Martinica).

A segunda Jolly Roger de Bartholomew Roberts

Em Hispaniola


Com nova bandeira, Bartholomew Roberts e sua tripulação retornaram a Dominica, capturando um traficante holandês, com um barco de 22 canhões e 75 homens, além de um bergantim de Rhode Island, do mestre Norton. Seguiram com os dois prêmios para Guadalupe, ainda no Caribe, onde trocaram as embarcações por uma chalupa bem armada e um barco ligeiro francês cheio de açúcar.
Na baía de Samaná, no norte de Hispaniola (ou ilha de São Domingos, dividida atualmente entre República Dominicana e Haiti), os piratas repararam e colocaram em ordem seus barcos. Apesar de sua população pequena e atracadouros incompatíveis com uma capital, Hispaniola era a residência do governador geral da Espanha. Antes de sair dali, a companhia de Roberts recebera a visita de duas chalupas, dos mestres Porter e Tuckerman, que trataram o capitão com as honras de um rei. Dizendo conhecer muitas histórias dos seus feitos e façanhas, vinham com seus homens pedir humildemente para conviver com a companhia, a fim de aprenderem a arte da navegação e da pirataria.
Roberts fora conquistado pela peculiaridade e objetividade dos visitantes. Ofereceu-lhes pólvora, armas e o que mais precisassem para equipar seus barcos. Duas ou três noites passaram se divertindo e conversando sobre as regras de conduta da companhia. O capitão tinha certeza que todos ganhariam com mãos hábeis de homens tão inclinados àquela atividade.

Vista atual da baía de Samaná, ao leste da República Dominicana, um dos muitos locais do Mar do Caribe visitados por Bartholomew Roberts e sua tripulação.

Julgamento a bordo


Após aprontarem os barcos e garantirem os estoques de rum e açúcar, Roberts e seus homens partiram de Hispaniola. Nos navios piratas, a bebida era mais abundante do que a água doce e poucos se recusaram ao uso imoderado. Mais do que isto, a sobriedade era motivo de suspeita. No seu entender, quem não estivesse bêbado provavelmente era um vilão conspirando contra os outros. Um homem sóbrio também era muito perigoso, já que os outros mal conseguiam parar em pé.
Este era o caso de Harry Glasby, o primeiro oficial do “Royal Fortune”. Sóbrio e comedido, era amigo de alguns poucos que não bebiam. Aproveitando-se certa ocasião de uma bebedeira geral, fugiu com outros abstêmios. Recuperada da ressaca no dia seguinte, a tripulação de Roberts conseguira pegar três dos desertores, entre eles, Glasby. Segundo o contrato da companhia, a fuga era um crime capital. Portanto, imediatamente os infelizes foram levados a julgamento.
O julgamento era realizado do tombadilho do piloto, que ficava mais alto do que o convés. O mau aspecto dos jurados fazia qualquer um confessar seus crimes. Os juízes ficavam ao redor de um enorme balde de rum, colocado sobre a mesa. Ao redor, cachimbos e rolos de tabaco preparados especialmente para a ocasião.
O processo começava com um trago à saúde dos jurados. Os prisioneiros eram trazidos diante do tribunal e ouviam a acusação. Se considerados culpados, eram punidos com todo o peso das leis. Enquanto os juízes bebiam, os prisioneiros imploravam de maneira comovente para um adiamento da sentença, mas o tribunal tinha tamanho desdém por fujões que os jurados só falavam em pena de morte para todos. Entretanto, para sorte de Glasby, um dos juízes, Valentine Ashplant, resolveu discursar em sua defesa: “Pelo amor de Deus, cavalheiros. Sou um homem igual aos outros, mas que me apunhalem pelas costas se alguma vez abandonei um amigo na pior hora. Todos sabem que Glasby é um sujeito honesto. Apesar de não beber, eu gosto dele. Que me condenem se não for a verdade. Ele deveria ter o direito de se arrepender. Mais do que isso: para matá-lo, terão que primeiro acabar comigo”. Sacou um par de pistolas e apontou-as para o banco dos magistrados, perguntando quem ali se dispunha a perdoar o réu. Diante de argumento tão convincente, todos acharam razoável que Glasby fosse inocentado. Quanto aos outros dois fujões, o único direito que conquistaram foi o de escolher seus executores, ou seja, seus pistoleiros preferidos.


Volta à rotina

Temendo serem reconhecidos e denunciada sua presença às autoridades das outras ilhas, a mando de Roberts, os piratas se desfizeram dos navios apreendidos. Queimando-os todos, ocuparam o bergantim tomado de Norton e enviaram o mestre e tripulação para o barco holandês. Desse modo, ficaram apenas com o ‘Royal Fortune’ e o bergantim, batizado
Fortune’. Na oportunidade, os ventos estavam favoráveis e, quando procuravam um barco para se reabastecerem, encontraram um navio abarrotado de mercadorias para a Jamaica, comandado pelo capitão Hingstone. Capturado, veio preso no barco até as Bermudas, onde limparam o porão, retirando toda a carga e o abandonaram.
Entre as indias Ocidentais, encontraram sucessivos navios, principalmente da França, que lhes abasteceram de provisões em abundância. Em viagem à costa da Guiné, planejavam trocar o que tinham por ouro em pó. No caminho, assaltaram navios de diversas nações, alguns queimando, outros afundando. Bastava um mestre fazer cara feia durante um assalto para seu barco ir a pique.


Ameaça de motim e deserções

O sucesso prolongado da companhia, entretanto, dificultava sua união, fosse qual fosse o governo ou regulamento que a regesse. Era com grande dificuldade que Roberts mantinha a tripulação unida. No intervalo dos assaltos, os homens estavam sempre enlouquecidos de tanta bebida, promovendo bagunça e tumultuando a vida nos navios. Os bêbados se imaginavam capitães e saíam dando ordens, ofendendo-se com a desobediência dos outros, que riam dos seus comandos. O capitão viu que não conseguia controlar tantos brutos juntos, nem tinha como impedi-los de beber demais, mesmo ameaçando os perturbadores com o desterro. Se alguém se ressentisse desse procedimento, ele desafiava a desembarcar e resolver a disputa com pistola e espada, já que nenhum deles, bêbados como estavam, lhe inspirava respeito ou metia medo.
Em virtude de tais problemas, a 400 léguas da costa da África, a tripulação do bergantim aproveitou uma noite escura para abandonar a companhia. A justificativa fora um incidente nas Índias Ocidentais. Pouco antes de partir, o capitão Roberts matara com um tiro na boca um bêbado da tripulação que o insultara. Muita gente ficou ressentida com a atitude, em especial, um tal Jones, mestre do porão, jovem vigoroso e despachado.
No momento do incidente, Jones buscava água em terra. Assim que ficou sabendo o que se passara, voltou a bordo praguejando contra Roberts e dizendo que merecia o mesmo tratamento. Ao ouvir o desabafo, o capitão veio tirar satisfação de sabre na mão. Jones reagiu e o capitão calou-o, cravando-lhe a espada. Apesar de ferido e moribundo, o jovem agarrou o capitão pelo pescoço, jogando-o por cima de um canhão e surrando-o.
A briga a bordo deixou a companhia em alvoroço. Alguns ficaram do lado do capitão e outros do lado de Jones. Os dois grupos de engalfinharam como galos de rinha e o tumulto só foi controlado com a intervenção do mestre quarteleiro, que convocou uma votação. A maioria opinou que a autoridade do capitão fora desacatada e isto não poderia ser admitido de forma alguma. Tratava-se de um cargo honorífico e ofender o capitão era o mesmo que ofender a todos. Assim, condenaram Jones a receber duas chicotadas de cada homem a bordo, com a sentença sendo adiada até que melhorasse do ferimento, o que não chegou a acontecer, pois o outro morreu.
A decisão da maioria não convencera Jones de que estava errado, levando-o a jurar vingança. Não conseguindo fazer nada diretamente contra o capitão, convenceu vários dos seus camaradas a conspirarem com Thomas Anstis, o capitão do bergantim (biografado por Charles Johnson no capítulo seguinte a Roberts), para deixarem a companhia. Anstis, por sua vez, vivia insatisfeito, sentindo-se inferiorizado em relação a Roberts, ainda que comandasse o maior navio.
Subindo a bordo do barco de Anstis, Jones e os conspiradores lá confabularam com seus irmãos-em-armas, constatando que a maioria se dispunha a vir com Anstis. Temendo a reação de Roberts, partiram sem dizer adeus. Na madrugada, contudo, alguns piratas desistiram da fuga, tentando impedir os outros de soltar o barco, mas foram dominados. Mais tarde, os que não quiseram acompanhar os desertores foram lançados no mar.

Bartholomew Roberts e Thomas Anstis (? – 1723), retratados em caixas de cigarro da ‘Allen & Ginter Cigarette Company of Richmond, Virginia”, em 1888. Dois dos cinquenta piratas que compõem a série, desde os mais famosos aos mais desconhecidos. A origem dos retratos e sua precisão histórica são incertas, mas o conjunto fornece uma visão ampla e interessante dos principais piratas da Era de Ouro da Pirataria. Muitos sequer tinham sido desenhados antes do lançamento da série.

De volta à África


A perda do bergantim foi um considerável choque para a tripulação de Roberts. Com o barco, a companhia perdeu 70 homens, grande parte de seus mantimentos e uma carga valiosa. O capitão, no entanto, sabia ser o pivô da discórdia, seguindo rumo à Guiné sem tocar no assunto. Avistou a Africa na altura do Senegal, onde existia um rio com intenso comércio de goma e borracha, monopolizado pelos franceses, que guardavam muito bem seus interesses dos traficantes e atravessadores de outras nações. Os piratas, entretanto, chegaram na época da troca de guarda. Os franceses só mantinham dois navios pequenos cuidando da costa, um de 10 canhões e 65 homens, outro de 16 canhões e 75 homens.
A guarda costeira viu o navio de Roberts ainda longe. Pensou em se tratar de um traficante estrangeiro, tentando comerciar ilegalmente por ali. Abriram as velas e vieram atrás. O capitão não reagiu, deixando que se aproximassem. Estavam perto demais para fugir quando se deram conta do engano. Aí os piratas hastearam sua bandeira e os franceses ficaram com o coração disparado, entregando-se praticamente sem protesto ou resistência. Seguiram para Serra Leoa de posse das presas. Um dos barcos foi rebatizado de ‘Ranger’ e virou acompanhante do navio principal da companhia. O outro veio atrás como navio despensa.

Em Serra Leoa


Ancorando numa das inúmeras baías de Serra Leoa, os piratas encontraram cerca de 30 ingleses que ali vivam, homens que, em algum momento da vida, também atuaram na pirataria, vivendo agora em relações amistosas com os nativos.
Numa pequena ilha das redondezas, vivia um velho chamado Crackers, que fora bucaneiro de destaque, tendo roubado e matado a muitos, até aposentar-se, depois de receber um perdão real. Crackers fazia bons negócios, guardando mercadorias e pertences de piratas que hospedava com todas as honras, atraídos ao local pela presença de um entreposto da Royal African Company (Companhia Real Africana).
A costa da Guiné era repleta de ancoradouros convenientes para recolher água e madeira. Isso atraía muitos navios, principalmente de mercadores ingleses vindos de Bristol.
Traziam gransde carregamentos de cerveja, sidra, rum e gym que valiam muito ali. Os comerciantes davam vários escravos e dentes de elefante por um engradado de qualquer bebida européia.
Adentrando no rio Nunes, no final de junho de 1721, com o objetivo de limpar e reparar os navios, Bartholomew Roberts e sua tripulação ali permaneceram por seis semanas, dedicando-se a grandes bebedeiras e intensas fornicações. No início de agosto zarparam, assaltando todos os navios que encontraram pela frente.

Insígnia da Royal African Company, empresa mercantil fundada em 1660 pela Casa de Stuart, quando a referida família retornou ao poder na Inglaterra, durante a Restauração. Dirigida por Jaime, duque de York, irmão do rei Carlos II, a companhia tinha o propósito inicial de explorar os campos de ouro ao longo do rio Gâmbia. Entretanto, rapidamente a empresa envolveu-se no comércio de escravos na costa ocidental da África. Entre 1719 e 1722, os assaltos do pirata Bartholomew Roberts aos navios e entrepostos da companhia quase levaram-na à falência, mas sua extinção ocorreu somente em 1752.

Uma grande presa: a Fragata ‘Onslow’


Em sua carreira de pilhagens, os piratas trocaram seu depauperado barco francês por uma fina fragata chamada “Onslow’, da Royal African Company. Na hora do assalto, grande parte da tripulação trabalhava em terra firme. Roberts aproveitou para capturar o
efeso e, discursando para os homens do barco apreendido, contando-lhes as histórias das façanhas de seus comandados, convenceu-os a aderirem à sua companhia.
A bordo da fragata viajava um religioso, enviado da Inglaterra para a capela da Costa do Castelo. Alguns piratas queriam mantê-lo a bordo, alegando com ironia que precisavam de um capelão para abençoar suas iniciativas. Por mais brutos que fossem alto respeito pela autoridade religiosa e, vendo que o cura não tinha aptidão para a vida no mar, deixaram-no decidir de livre escolha. O vigário sorria e, abençoando a todos, desculpou se por Deus não ter lhe feito mais predisposto à navegação, mas agradecia efusivamente a honra do convite. Desse modo, o capitão liberou-o e não permitiu que ninguém ficasse com qualquer propriedade da Igreja, exceto uma Biblia (a única a bordo estava incompleta), um abridor de garrafas e três livros de catecismo, cujo papel era bom para bucha de canhão. Reformada para uso dos piratas, a Fragata ‘Onslow’ recebeu 40 canhões, passando a também se chamar ‘Royal Fortune”.

Em Calabar


O próximo porto de parada do capitão Bartholomew Roberts foi a velha cidade de Calabar, na atual Nigéria. Por ali ficaram consumindo os frutos de suas desonestidades e bebendo para afastar os maus pensamentos. O piloto que os trouxera para dentro daquele ancoradouro foi um tal capitão Leone. Extremamente bem pago pelo serviço, fora contratado também para esconder dois ou três navios de Bristol capturados no caminho.
Quando os negros de Calabar descobriram a presença dos piratas, recusaram-se terminantemente a tratar com eles. Nessa rejeição ao negócio com foras-da-lei, mantinham uma postura de dar inveja a muitos cristãos das vizinhanças.
atas, que normalmente se mostrariam muito ofendidos com tais recusas, não se exasperaram com os nativos. Não poucos até evitavam o confronto. Roberts, por sua vez, despachara uma força de 40 homens para contatos com os locais, fingindo-se de amigos para lhes trazerem a bordo como escravos. Para chamar-lhes a atenção, desembarcaram ao som dos canhões dos navios, mas os nativos não gostaram da provocação. Reuniram dois mil guerreiros com o ressoar dos tambores. Armados com arcos e flechas, derrubaram dois ou três piratas, que disparando suas pistolas os forçaram a recuar, com um bom número de baixas.
Furioso, antes de zarpar, o capitão mandou incendiar um vilarejo abandonado que encontraram perto da praia, mas resolveu não invadir o lugar. Alegando falta de comida, se disse forçado a velejar para Cabo Lopez, no Gabão, aonde só conseguiram água. Dali, navegaram para a ilha de Annabona, no Golfo da Guiné, obtendo bom estoque de mantimentos frescos. Voltaram depois para a costa sem saber que aquela seria sua última e fatidica expedição.

Bebedeira da tripulação de Bartholomew Roberts às margens do rio Calabar, na Nigéria.


Últimas pilhagens


A decisão do capitão Roberts em incendiar o vilarejo em Calabar, levantando denunciadores sinais de fumaça, foi um descuido inexplicável. Desde que entrara no rio Nunes, ele sabia da existência de dois men-of-war da Royal Navy na região, o HMS ‘Swallow’ e O HMS “Weymouth’, de 50 canhões cada.
Contudo, a presença dos vasos de guerra de Sua Majestade não impediu que os piratas dessem continuidade às suas pilhagens.
No inicio de janeiro de 1722, tomaram o’ Rei Salomão’, com 20 homens a bordo. Depois, um navio mercantil, pertencente à mesma companhia. No mesmo dia, capturaram um navio holandês, o “Flushing’, roubando jardas, vergas e velas de reserva. O capitão trazia grandes estoque de excelentes salsichões feitos por sua mulher. Os piratas ridicularizaram as tripas de salsichas, usando-as como pulseiras, colares e coleiras, jogando as que se partiam no mar, para os peixes comerem.
Pegando um vento forte, os piratas de Roberts chegaram muito perto da Guiné. Avistados da costa e sem encontrarem presa alguma por ali, mudaram o curso para Ouidah, no atual Benim, aonde apareceram engalanados com a insignia de São Jorge no alto do mastro. Ali fizeram uma verdadeira devassa no porto, pilhando companhias inglesas, francesas e portuguesas. Entre os barcos franceses estavam três navios de porte, com 30 armas e mais de 100 homens cada um. Enviando emissários ao porto, o capitão passou a cobrar resgate para devolução dos barcos. Alguns comerciantes estrangeiros nunca tinham lidado com gente tão desonesta e vieram tirar satisfação, dizendo que os proprietários das embarcações exigiam recibo da operação. Os piratas concordaram e, descaradamente, emitiram diversos documentos semelhantes ao abaixo:


RECIBO DO PIRATA BARTHOLOMEW ROBERTS


Este recibo certifica a quem possa ou venha inquirir, que nós, cavalheiros da fortuna abaixo assinados, recebemos oito libras em pó de ouro, como resgate do barco ‘Hardey’, do capitão Dittwitt, que se encontrava em nosso poder. Com este recibo despachamos o dito navio, sendo disso testemunha toda a companhia.

Bartholomew Roberts, 13 de janeiro de 1721-22.


O caso do Porcupine’

Em Ouidah, verificou-se um dos maiores atos de barbarismo praticados pelo capitão Roberts (gravura ao lado) e seu bando.
Um dos navios ali apresados era o ‘Porcupine”, do mestre Fletcher. Sua tripulação estava morrendo de fome quando apareceram os piratas. O comandante fora ao porto acertar as contas e nunca mais voltara com os mantimentos que prometera. Dispensaram os homens sem as suas armas e mandaram um pedido formal de pagamento espontâneo para resgate do barco. O chefe do porto rejeitou, por não ter autorização do proprietário. Isso era uma mentira, mas ele achava muito desonroso negociar com ladrões. O navio também pouco The importava. Já recebera o dinheiro, mas não entregara metade dos escravos que vendera. Fez as contas e
não valia a pena. Diante disso, Roberts se ofereceu para revender o resto da carga de negros. Como ficou sem resposta, levou os escravos de bote, soltando-os na costa e colocando fogo no navio. Por não acharem as chaves dos cadeados, os piratas não conseguiram desacorrentar vários negros, que ficaram no porão, queimando com a carga. Poucos conseguiram se soltar, jogando-se no mar para morrer entre os dentes de tubarões, que lhes arrancavam aos pedaços ainda vivos. Segundo o Capitão Charles Johnson, “os piratas assistiam impassíveis àquela crueldade sem paralelo, demonstrando porque a forca não é uma punição rigorosa para esses vilões”.


Uma carta reveladora

A tripulação pirata não teve tempo para assistir ao terrível espetáculo até o fim. Entre as coisas retiradas da cabine do capitão do ‘Porcupine”, havia uma carta do general Phips, endereçada ao senhor Baldwin, agente da Royal African Company em Ouidah. A carta acompanhava um relatório sobre gente que vira os barcos de Roberts e recomendava a Baldwin que redobrasse a seguranca das rotas a fim de evitar maiores prejuízos à companhia até a chegada do man-of-war “Swallow’, que já estava a caminho, com armas e homens suficientes para suprimir os renegados.
Roberts convocou a tripulação e leu a carta, que entendeu como declaração de guerra do general Phips. Os piratas tilintaram seus cutelos, dizendo-se prontos para os homens do general, mas o capitão convenceu-os de que era melhor evitar golpes no ar, já que não teriam condições de grandes resistências se fossem alcançados por um navio de artilharia tão potente. O mais recomendável era sair da costa o quanto antes, e assim o fizeram, retornando para Annabona. Os ventos, porém, sopraram noutra direção e os navios terminaram amanhecendo à vista do Cabo Lopez.


O HMS ‘Swallow

Entre 28 de julho e 20 de setembro de 1721, os navios de Sua Majestade estavam na ilha do Príncipe. A demorada permanência fora decorrente de séria doença a bordo. Navios grandes, abarrotados de soldados e marinheiros, terminaram expostos a todo tipo de irregularidades. Bastava um homem esquecer as regras mais básicas de limpeza, para colocar em risco a vida de todos, como o marinheiro que tira água do barril com a mão e não caneca. Foi justamente isso que aconteceu com os men-of-war. Uma diarreia incontrolável fez com que enterrassem 100 homens em três semanas naquele porto. O resto da tripulação estava tão doentio e enfraquecido, que só conseguiu fazer o navio ir ao mar com muita dificuldade. Não fosse essa má sorte, a história de Bartholomew Roberts provavelmente já teria acabado. Quanto ao HMS Weymouth’, encontrava-se em pior estado, sem condições de viajar, sendo deixado na ilha sob a guarda do forte.


Royal Navy x Companhia de Bartholomew Roberts


Em 29 de janeiro de 1722, o HMS ‘Swallow’ chegou às margens do rio Gabão. Na caça aos piratas, o capitão Ogle mandou um destacamento de soldados subir o rio. O navio veio atrás, ancorando na boca do rio no dia 1 de fevereiro. Esse rio era navegável por dois canais, formados por uma ilha de cinco léguas, chamada Papagaios.
O capitão enviara na frente um bote com um lugar-tenente, que estabeleceu contatos com um mercador holandês da ilha. O mercador disse que tinha chegado de uma viagem a Cabo Lopez, não tendo encontrado navio algum pelo caminho. O capitão não acreditou na história e mandou seguirem para o cabo. Na madrugada do dia 5, viram as luzes do que pensaram ser os barcos ancorados no cabo, mas foram surpreendidos pelo estrondo de Canhões disparados em sua direção. Ao clarear do dia, viram três navios fechando as entradas do porto de Cabo Lopez. O maior deles trazia as cores do Reino Unido com duas bandeiras negras, sendo logo reconhecido como de Bartholomew Roberts. O ‘Swallow’ surpreendera os piratas enquanto assaltavam o porto!
Todavia, o man-of-war estava demasiadamente a barlavento e resolveu se afastar, para evitar de encalhar nos bancos de areia. Roberts mandou os homens esperar para ver se os tiros seriam suficientes para meter medo. Convenceram-se disso ao veremo “Swallow’ se afastando. Imediatamente, puxaram o ‘French Ranger’ para fora da baía e vieram em sua perseguição a toda a velocidade.

Na pressa, enrolaram várias velas com as cordas e o man-of-war se deu conta de que os piratas tinham mal interpretado seus movimentos. Ogle alimentou o mal entendido, saindo ainda mais ao mar, como se realmente estivesse fugindo de medo. Os piratas vieram atrás confiantes de que soltariam as velas a tempo de Capturarem a presa.
O ‘Swallow”, entretanto, tinha no lugar-tenente Sun, um oficial experiente nesse tipo de operação. Ele foi deixando o ‘Ranger’ chegar bem perto várias vezes, antes de voltar a ganhar distância. Uma vez afastado o suficiente para que não se ouvissem seus canhões de cabo, o man-of-war preparou a artilharia. Os piratas tinham tamanha autoconfiança, que chamavam aquilo de “regata”, um assalto sem o maior esforço. Nem sequer sonhavam que alguém se servia de um estratagema igual aos seus para combatê-los. Assim, morderam a isca. Estavam quase encostando no ‘Swallow’, quando hastearam a bandeira preta e se puseram em posição de abordagem. Dispararam seus canhões achando que a presa era uma barca portuguesa, cheia de açúcar e melaço de cana. Praguejavam contra o vento, sem conseguir desemaranhar as cordas ou abrir bem as velas.
Na demora para o assalto final, viram a “presa” abrir as portinholas das canhoneiras laterais e arrancar a bandeira preta com um tiro. Passado o primeiro susto, conseguiram se afastar, disparando seus canhões e bramindo seus cutelos no ar, como se atacassem, embora fugissem. O ‘Swallow’ veio atrás.
Sem saber o que fazer, os vilões sugeriram um ato desesperado de bravura, a conquista do navio no corpo-a-corpo. A ideia, porém, não foi adiante, pois o mastro principal do ‘Ranger” caiu sobre a assembleia na hora da votação. Logo, o man-of-war chegou perto e iniciou uma tempestade de balas, que deixou 10 mortos e 20 feridos em minutos. Os outros se renderam para prolongar a vida.
Sem sofrer uma morte, os soldados de Sua Majestade capturaram o dito ‘French Ranger”, com 32 canhões e mais de 100 piratas a bordo: 16 franceses, 20 negros e 77 ingleses. Antes de se entregarem, os piratas jogaram no mar suas bandeiras, suas insignias, livros de ocorrência, cartas, tratos e contratos da companhia, para que não servissem de provas contra eles nos tribunais.


Explosão e interrogatório a bordo

Os prisioneiros estavam sendo transferidos para um bote que os traria ao ‘Swallow’ quando ouviu-se um grande estrondo, seguido de fumaceira. A tripulação pirata que permanecia em seu navio tentara explodi-lo. Meia dúzia de renegados, ao perderem a esperança de fugir, recolheram toda a pólvora que lhes restava no chão do convés e dispararam uma pistola em cima. A quantidade, porém, era muito pouca para danificar coisa maior do que queima-los de maneira horripilante.
Esse navio era comandado por um tal Shyrmé, um pirata gaulês, que mesmo tendo perdido uma perna em ação, não permitia que lhe vestissem ou carregassem a bordo. Igual aos outros tentava lutar, movendo-se rápido nos seus pulinhos de perneta. No interrogatório que se seguiu a bordo do ‘Swallow’, os prisioneiros revelaram que o seu tesouro ficara no navio ‘Little Ranger’, que conseguiu fugir. Falaram ainda que o principal navio do bando, o ‘Royal Fortune’ do capitão Bartholomew Roberts, fora apropriado da frota da Royal African Company.

Dois homens se destacavam entre os prisioneiros, por serem os mais desfigurados pela explosão, William Main e Rogers Ball. Um oficial do ‘Swallow’, vendo um coldre de prata pendurado na cintura do primeiro, disse: “Eu te conheço. Você é o barqueiro deste navio”. “Nada disso”, respondeu o pirata. “Sou o barqueiro do ‘Royal Fortune’, do capitão Roberts, que está vindo nos buscar”. “Antes dele chegar, meu amigo, você já estará enforcado”, interrompeu o oficial. “Seja conforme o desejo de Sua Excelência”, replicou o outro, dando as costas. O oficial, porém, quis saber como a cara dele ficara daquele jeito e como conseguiram prender fogo em pólvora molhada. “Meu Deus!”, exclamou o barqueiro. “Tinha mais pólvora no convés do que no paiol. Além da cara,
perdi meu chapéu”. “Que importância pode ter um chapéu, amigo?”, comentou o oficial. “Não muita”, respondeu o outro, já que os soldados tiraram todas as roupas dos presos. O mestre, então, lhe perguntou se o barco de Roberts tinha muita gente fina igual a ele. “Tem 120”, revelou o pirata. “Todos cheios de saúde, com sapato e camisa. Eu teria sapatos se estivesse com eles”. “Sem dúvida”, reagiu o oficial, olhando para baixo e vendo que estava praticamente nu.
O próximo interrogado foi Rogers Ball, o outro desfigurado. O oficial perguntou como tinha acontecido aquilo. Nem mesmo deformado, Ball deixou de ter o olhar mais mal encarado possível, aguentando a maior dor sem queixas. “John Morris disparou uma pistola na pólvora e se ele não fizesse isso, eu faria”. O oficial deu a entender que era cirurgião e, se assim desejasse, poderia enfaixá-lo. O pirata rejeitou, dizendo que ninguém lhe poria a mão. O cirurgião, mesmo assim, insistiu em enfaixá-lo. Para isso, teve que amarrá-lo primeiro.
A noite, Ball começou a delirar, gritando como louco que Roberts estava a caminho para libertá-lo. Gritou tanto que precisou de umas chicotadas sobre as feridas para ficar quieto. Como estava muito machucado, morreu no dia seguinte. Para evitar que isso se repetisse com os demais prisioneiros, prenderam todos com pinos e grilhões nos pés. Os oficiais do man-of-war discutiram depois o que fazer com o navio apreendido. Estava tão danificado que valia mais a pena queimá-lo. Isso, porém, daria muito trabalho para trazer sua carga e pessoal a bordo. Também havia feridos demais entre os piratas. Ainda estavam convencidos que o “Royal Fortune’ viria buscá-los. Assim, arrastaram o barco para a costa, despachando-o para a ilha do Príncipe com todos os presos. O ‘Swallow’ seguiu então para Cabo Lopez, chegando na madrugada de 9 de fevereiro de 1722.


A morte do Capitão

O ‘Royal Fortune” estava parado na baía ao lado de um novo barco, o ‘Neptune’, de um tal capitão Hill, de Londres. O pessoal do man-of-war achou aquilo um bom presságio e os oficiais não tinham dúvidas que as tripulações daqueles dois barcos já estariam caindo de bêbadas àquela hora. Acharam melhor esperar mais um pouco, para que clareasse, quando pegariam os piratas mais confusos contra a luz da manhā. No dia 10, war deu a volta no cabo. O vigia do barco de Roberts acordou a tripulação aos gritos: “Vela! Velal”. Como também estava bêbado, via tudo duplo. Achou a esquadra tão grande que veio descrevê-la ao capitão, que tomava chá com torradas à janela da cabine, olhando o mar.
De costas para o vigia, Roberts não tomou conhecimento. Mais homens vieram vê-lo, dizendo ser uma barca portuguesa. Outros insistiam que era um navio negreiro francês. A maioria, contudo, acreditava ser o barco capturado pelos companheiros do ‘French Ranger’ que trocaram de navio. Conforme o ‘Swallow” foi se aproximando, as coisas ficaram mais claras. Quem voltou a alertar o capitão para o poder do navio foi Armstrong, que desertara do man-of-war anos antes. O pirata praguejou chamando todos de covardes. Mandou cada um para seus postos, que logo cuidariam do intruso. Armstrong tentou insistir e quase levou uns socos.
Difícil imaginar o que se passara na cabeça do capitão naquela hora. Em seu plano, Roberts pretendia cortar os cabos de seu barco e sair dando tiros para fugir. Se não desse, que cada um lutasse pela sua vida.
Armstrong, entretanto, continuava a resmungar pelos cantos. Os mestres perguntaram ao desertor do ‘Swallow” o que o navio tinha de tão amedrontador. Ele respondera dizendo que velejava muito bem devido ao seu corte, sendo difícil escapar dele havendo vento. Roberts reconheceu o perigo e entendeu que só a surpresa da ousadia lhe tiraria dali com vida. Assim, em meio da baia, suspendeu a fuga e voltou, como se viesse a atacar o “Swallow’. Passaria bem perto e sairia inteiro se disparasse primeiro. Caso fossem incapacitados de fugir na manobra, ainda poderiam tentar tomar o navio no braço. Se não desse, que fugissem de bote ou a nado para a costa. Se nem isto fosse possível, que se trancasse no paiol e explodissem o navio, levando junto o inimigo.

Pelo entusiasmo com que os homens o apoiaram, Roberts viu que estavam completamente bêbados. Passivamente corajosos, mas sem condições de combate. O próprio pirata fazia uma figura mais galante do que pronta para entrar em combate, vestindo uma jaqueta de couro damasco cravejada de pedras coloridas. Uma enorme pluma vermelha sobressaía do chapelão, uma grossa corrente de ouro pesava no pescoço, suspendendo uma cruz de diamantes sobre o peito. A espada de um lado, o cutelo de outro, dois pares de pistola a tiracolo e duas cartucheiras nos ombros completavam o traje a rigor. O ‘Royal Fortune’, então, veio bem perto do man-of-war, mas recebeu um canhonaco antes de disparar e foi atingido. Os bêbados ficaram perdendo tempo hasteando a bandeira negra, em vez de abrirem mais velas e se afastarem. Se seguissem o conselho de Armstrong, nem tentariam ir em frente e provavelmente vivessem mais tempo. O capitão mandou avançar, mas o barco estava preso por cordas, devido a mau manejo ou erro dos embriagados. As velas terminaram se prendendo nelas e trazendo o barco de volta, como se o timão tivesse trancado. O ‘Swallow’ preparou-se para recebê-los. Roberts pensou em acabar a luta rapidamente, com um tiro certeiro no capitão inimigo e um assalto endiabrado ao navio. Feito uma transmissão de pensamento para o inimigo, justamente isso lhe aconteceu. A bala perdida de um tiro de mosquete atravessou-lhe a garganta e Bartholomew Roberts caiu sobre uma canhoneira. Um tal Stephenson, que estava numa verga, pulou para o convés a fim de ajudá-lo. Sem perceber que estava ferido, deu-lhe um empurrão e, entre palavrões, mandou que se levantasse sozinho, feito um homem. Só mais tarde o marinheiro se deu conta de que o capitão estava morto, parado na posição que o deixou. Ai, chorou, desejando que o próximo tiro fosse seu. Os outros piratas também não conseguiram ir à luta. Pararam para jogar seu corpo no mar, com suas armas e condecorações, bem como pedira que fizessem quando chegasse a sua hora. Contava o capitão Roberts 40 anos de idade. Era moreno, alto, de avantajado porte e coragem sem limite. Passara a juventude embriagado, mas depois dos 30 só tomava chá. Para ele, que se danasse quem vivesse de acordo com a lei e a ordem. Amava a turbulência e a aventura. Em apenas três anos de atividades, liderara a captura de mais de 400 embarcações de diversas nações, feito jamais igualado por nenhum outro capitão pirata.


O Julgamento da Tripulação


Com a morte do capitão, os piratas ficaram como se tivessem perdido a alma. Muitos desertaram de suas posições, negligenciando se defender ou fugir. Um canhonaço derrubou o mastro principal sobre o castelo de popa, deixando a tripulação sem qualquer alternativa, a não ser morrer ou se render, o que para eles era quase a mesma coisa. Pediram trégua. O ‘Swallow’ se manteve afastado, enquanto seus barcos vieram buscar os prisioneiros. Temendo que explodissem o barco quando o invadissem, resolveram antes retirar os presos. Alguns se recusaram a sair do navio e se trancaram no paiol com uma tocha acesa.


Para o Capitão Charles Johnson, “não é fácil entender o que move os corações tempestivos, que tomam decisões irreversíveis no improviso do momento, sem medir as consequências. Em nome de uma falsa coragem, estão dispostos a acabar com a própria vida, pouco se importando com os que matarão junto contra a vontade”. Dessa maneira, o navio de Roberts só não explodiu por uma desavença entre os que queriam e os que se opunham a destruir tudo, os quais terminaram se rendendo.
Em 28 de março de 1722, no Tribunal do Castelo da Costa do Cabo, na África Ocidental, teve início O julgamento dos piratas da tripulação de Bartholomew Roberts, capturados pelo navio de Sua Majestade, OHMS ‘Swallow’.
Ao fim do processo, de um total de 267 tripulantes, a contagem do tribunal ficou assim:

Inocentes 74
Executados 52
Execução pendente 2

Regime de servidão 20

A disposição do almirantado 17

Mortos no ‘Ranger” 10

Mortos no ‘Fortune” 3

Mortos na viagem para o Cabo da Costa 15

Mortos no Castelo da Costa do Cabo 4
Negros a bordo 70


Os condenados aceitaram as suas penas e caminharam para o cadafalso sem uma única lágrima nos olhos ou qualquer mostra de pesar pelos crimes do passado. Eram incapazes de arrependimento e, para eles, não deviam explicações a ninguém, a não ser a Deus. Para outros, mesmo isso parecia pouco importar.
Era o caso, por exemplo, de Thomas Sutton, de 23 anos, natural de Berwick. Quando estava acorrentado com outros companheiros piratas, após serem capturados pelo ‘Swallow’, perguntou a um deles, que passava os dias a ler os pedaços de uma Bíblia que encontrara: “O que espera conseguir rezando agora?”. “Espero ir para o Paraíso”, respondeu o outro. “O paraíso dos malucos e malvados? Quem já ouviu falar de piratas no Paraíso?”, retrucou Sutton. E concluiu desejando: “Vida de pirata é o inferno no mar, onde tudo é mais perigoso e divertido. Eu espero ser recebido no fogo eterno pelo diabo do capitão Roberts”

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